BATER?! APENAS SE FOR O CORAÇÃO!


domingo, 31 de maio de 2009

Para um ensino com valores

Ao estar em sociedade e em comunidade, estamos sujeitos a adversas situações na nossa vida. O ser humano é algo tão complexo que é inexplicável a tomada de atitudes tão inaceitáveis, como o uso da violência. O respeito da nossa identidade, do nosso espaço, das nossas preferências e da nossa genuidade, é fundamental para a compreensão e aceitação do ser humano.
Como professora e educadora, tento transmitir aos meus alunos, certos valores, deveres e princípios fundamentais; a saber: o respeito que devem ter perante todos, sejam os colegas, os funcionários, os professores, a família e todos aqueles que os rodeiam no dia-a-dia. Infelizmente, cada vez mais assistimos a actos de violência verbal, física, e de muita intimidação entre os jovens, seja numa relação de amizade, ou de namoro. Eu sempre estabeleci uma relação de proximidade com os meus alunos, dando sempre conselhos, revelando experiências que já vivi quando tinha a idade deles.
Sempre senti que o nosso papel não é criar muros, mas sim pontes de acesso à abertura e confiança, de forma a sentirem-se seguros no revelar de situações sofredoras que não tenham coragem de divulgar aos pais ou outros colegas. Infelizmente muitos jovens não tem um suporte familiar que possam revelar situações de crise ou de ameaça, são muitos os jovens que passam por determinadas situações de violência, que não tem coragem de revelar com medo de continuar a sofrer ainda mais violência. Se o nosso papel é estabelecer essa ponte de acesso, a abertura desse caminho pode ser a ponte de salvação e refúgio para muitos jovens que infelizmente são vítimas de violência.
O professor não é um mero transmissor de conhecimentos, o professor é a pessoa que está a maior parte do tempo com eles, para muitos é a família que nunca tiveram, o amigo e o conselheiro. Eu sinto que o nosso papel é fundamental, devemos criar bases de segurança e afectos, fazendo sentir que há sempre um caminho e uma oportunidade de conseguirem sair de uma situação de violência. Está nas nossas mãos construir bons "alicerces" na construção do grande edifício - " o desenvolvimento do ser humano".


Ângela Silva - Professora de Matemática da ESMAVC

Quando o homem é a vítima...


Tenho visto no Blog muitos testemunhos sobre violência no namoro... mas em quase todos o agressor é um elemento do sexo masculino. Há até um artigo que sugere que a violência no namoro é um caso de homens, que as vítimas são sempre as mulheres... e eu não concordo. Aliás, todos nós sabemos que não é assim.

Se, por um lado, é verdade que as mulheres hoje já têm mais apoio institucional e, com a conquista de uma cidadania igual, vão tendo menos medo de falar, de acusar os agressores (porque, diga-se de passagem, também se sentem mais protegidas pelo Estado do que antes, e ainda bem)... por outro, parece que os homens ainda têm medo de falar... não vi nenhum relato de violência no namoro sendo a mulher a agressora - também é verdade que as namoradas raramente partem para a violência física, mas há muitos casos em que isso acontece e que os homens se calam.

Vi hoje na Sic o caso de um homem que fez queixa na polícia da Covilhã de um antigo namorado que o agredia. Pensei logo: que homem de coragem! É verdade que o senhor referiu que teve medo da chacota dos polícias, por ser homossexual... mas não se importou e denunciou na mesma. A tarefa dos polícias não é fazer chacota... em todo o lado há bons e maus profissionais - e ante um mau profissional, que descrimina, há também que fazer queixa... Ficar calado é que não é o remédio, com certeza!

Os homens têm de começar a perceber que ser vítima de agressão no namoro não é sinónimo que a sua masculinidade está em baixa. Só uma mentalidade machista e preconceituosa é que pensa assim.

Conheço um amigo que, cada vez que a namorada tem ciúmes dele, lhe bate. "É só um estalo, nem dói nem nada", diz o meu amigo, quando ela lhe começa a bater em frente de todo o grupo de amigos. Isto é, ele acha que se disser que dói deixa de ser menos homem por isso (não vê sequer que o problema não está no doer, mas no gesto, na falta de respeito). Quando nós lhe dizemos "E tu não te defendes?", ele responde: "Desde quando se bate em mulheres?". Bem, nós nunca quisemos aconselhá-lo a bater na namorada... mas achamos triste que ele não se defenda, que não deixe que ela lhe bata porque ainda não vê as mulheres num plano igual ao seu. Esse meu amigo acha que, só por ser mulher, a namorada é frágil e a violência não conta tanto. Digo eu: "numa namorada não se bate nem com uma flor e num homem também não!".

É preciso que os homens deste país não vivam amedrontados e presos a preconceitos. A violência não é uma questão de género, nem de etnia, nem de orientação sexual, nem de cultura, nem de outra coisa qualquer. A vítima pode ser qualquer um de nós... e só temos uma arma: falar, dizer, gritar, denunciar. O silêncio e o medo tornam-nos muito pequenos. Os homens têm de perceber, como as mulheres já perceberam, que a culpa é de quem agride e não de quem é agredido; não importa "o que outros pensarão?!"... importa é não nos deixarmos enfraquecer... importa é não se ser infeliz!


José Ferreirinhas - Arruda dos Vinhos

MITOS FALSOS SOBRE AMOR


O namoro é sempre a conjugação de três factores: intimidade, paixão e compromisso. Nenhum dos factores pode falhar, para que ambos se sintam realizados e felizes. Porém, ainda existe muitos mitos falsos sobre a violência que surge nas relações. Eis a resposta a 5 mitos falsos:


Mito 1- Se ele/a me bate é porque gosta de mim.

FALSO. Por muito que amemos uma pessoa nada justifica a violência entre duas pessoas que se amam. Quando há amor, os problemas são resolvidos em conjunto através do diálogo não magoando a pessoa que amamos, física ou psicologicamente. Desculpar a violência é apenas permitir que ela continue e que vá aumentando de intensidade. A indiferença não é amor, é verdade, mas se a diferença for bater ou agredir... isso também não é amor!!!

Mito 2 - Ele/a não é violento/a porque nunca me bateu.

FALSO. Por violência não se entende apenas murros e pontapés. “A violência mais comum é a emocional (insultos, humilhações, ameaças, tentativas de controlo) e a pequena violência física (bofetadas, empurrões). Há violência quando alguém, intencionalmente, magoa o outro, ferindo-o fisicamente, na sua auto-estima ou na sua realização pessoal.

3 - Ele/a só me bate porque tem ciúmes.

FALSO. O que acontece é que os adolescentes, embora reprovem a violência em abstracto, depois encontram justificações e desculpam a violência em situações específicas, como os ciúmes. Quem ama confia. E como disse a Rosa, num artigo deste Blog: "O ciúme é como o sal - quando é demais amarga e faz mal ao cotação". Ser possessivo não é sinal de amor; amor é segurança.

4 - Mais vale ter um/a mau/má namorado/a do que não ter nenhum/a.

FALSO. Não é preciso ter-se um namorado para as pessoas se sentirem valorizadas. Aliás, a falha está em alguém se sentir valorizado apenas quando namora. Numa relação a dois é preciso que ambos estejam de bem consigo próprios, para se poder estar bem com o outro. Quando alguém namora para se sentir bem, é porque não sabe gerir a sua independência... e ficar totalmente dependente do/a namorado/a é meio caminho para a relação não ter um final feliz. Goste primeiro de si!!!

5 - Com o tempo ele/a há-de deixar de ser violento/a.

FALSO. Normalmente, quando se é violento a primeira vez nunca mais irá parar o ciclo, o respeito já foi perdido. Por isso, a missão é a dialogar, estabelecer regras... porque a violência não vai parar se nada se fizes. Talvez se tiver ajuda psicológica (a pessoa violenta) não seja impossível a violência ter fim, mas o problema está quando essas pessoas não deixam ser ajudadas.
Irina Rocha - 11.ºM - ESMAVC

AMOR DO AVESSO

Excelente reportagem da Sic sobre violência no namoro; clique no link:

http://sic.aeiou.pt/online/noticias/programas/reportagem+sic/

Declaração Universal dos Direitos dos/as Namorados/as


DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS DOS/AS NAMORADOS/AS


Adoptada e proclamada pela Assembleia Geral do 11.ºM da Escola Secundária Maria Amália Vaz de Carvalho a 29 de Maio de 2009.


Preâmbulo:
Considerando que o reconhecimento da dignidade inerente a todos os membros da família humana e dos seus direitos iguais e inalienáveis constitui o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no namoro;
Considerando que o desconhecimento e o desprezo dos direitos entre os/as namorados/as conduziram a actos de violência que revoltam a consciência dos deuses do amor e que o advento de um mundo em que os/as namorados/as sejam livres de amar sem medo, libertos de agressões físicas e psicológicas, foi proclamado como a mais alta inspiração nas relações amorosas;
Considerando que é essencial encorajar o desenvolvimento das relações amistosas e amorosas entre os casais:


A Assembleia Geral Do 11.ºM
Em nome de toda a humanidade, proclama a seguinte Declaração Universal dos Direitos dos Namorados/as como ideal comum a atingir por todos/as os/as namorados/as de todos os povos e de todas as nações, de todas as etnias e de todos as faixas sociais, de todas as convicções e de todos os credos, de todas as idades e de todos os géneros, a fim de que todos/as os/as namorados/as a tenham constantemente no seu espírito e se esforcem por aplicá-la para tornar o mundo do namoro um mundo melhor, mais confiante e mais justo.


LIVRO I – Dos Direitos Em Geral:

Art. 1º
Todo(a) o/a namorado(a) possui o direito de ter a sua individualidade respeitada; por isso, não pode ser forçado(a), pelo(a) namorado(a), a mudar de gostos, de opiniões, de amigos, de interesses, de traços físicos ou de personalidade.

Art. 2º
Todo(a) o/a namorado(a) possui o direito de ter a sua imparcialidade respeitada e de ser considerado(a) na relação como sujeito livre e racional, capaz de tomar decisões e de projectar objectivos por si. Há objectivos que são de ambos(as), mas há objectivos que são apenas de um(a) dos(as) parceiros(as).

Art. 3º
Todo(a) o/a namorado(a) possui o direito de poder confiar no(a) seu/sua parceiro(a) e de ser digno(a) de confiança, devendo os atritos ser resolvidos com base no diálogo e não com recurso a manipulações de qualquer espécie (vigiar o/a parceiro(a), bisbilhotar o seu telemóvel ou computador, etc.).

Art. 4º
Todo(a) o/a namorado(a) tem o direito de recorrer ao/à seu/sua parceiro(a) sempre que dele(a) precisar para acções legítimas, tendo o direito a ser escutado(a) por ele/ela e a ter apoio e compreensão.

Art. 5º
Todo(a) o/a namorado(a) tem o direito de ver a sua integridade física e moral respeitada, e sob nenhum pretexto pode ser vítima de violência no namoro: nem por ciúmes, nem por estados adulterados de consciência (álcool, drogas, etc.), nem por impulso nem por quaisquer outras razões.

Art. 6º
Todo(a) o/a namorado(a) tem o direito a expressar as suas ideias sem medo de represálias.

Art. 7.º
Todo(a) o/a namorado(a) tem direito a escolher o seu trabalho, a sua religião, os seus passatempos, bem como as roupas que veste.

Art. 8º
Todo(a) o/a namorado(a) tem direito a ter tempo para si, para realizar os seus projectos individuais.

Art. 9.º
Todo(a) o/a namorado(a) tem direito a gastar o seu dinheiro como bem entender – o/a parceiro(a) pode aconselhar, se achar que o dinheiro está a ser mal gasto, mas não pode recorrer a outros meios para impor o seu ponto de vista.

Art. 10º
Todo(a) o/a namorado(a) tem direito a não ter medo do/da parceiro(a).

Art. 11º
Todo(a) o/a namorado(a) tem direito a ser apoiado(a) e a ser ouvido(a) pelos seus amigos e familiares, podendo escolher os seus amigos livremente.

Art. 12º
Todo(a) o/a namorado(a) tem direito a decidir se quer ter relações sexuais ou não, bem como tem também o direito a usar, como meio de evitar doenças sexualmente transmissíveis, preservativo durante as relações (entre outros meios anticoncepcionais). Tem também o direito de decidir se quer partilhar quaisquer outras manifestações de afecto.

Art. 13º
Todo(a) o/a namorado(a) tem o direito a decidir livremente se quer terminar a relação amorosa, não devendo sofrer pressões, agressões ou outras represálias por ter tomado essa decisão.

Art. 14º
Todo(a) o/a namorado(a) tem direito a um clima de segurança afectiva, recebendo afectos positivos.


LIVRO II – Dos Deveres Em Geral:

Art. 1º
Todo(a) o/a namorado(a) deve prestar o devido respeito, físico e moral, em todas as circunstâncias, ao seu parceiro.

Art. 2º
A confiança deve ser recíproca, tendo cada um dos/as namorados(as) o dever de confiar e ser de confiança.

Art. 3º
Todo(a) o/a namorado(a) deve respeitar a integridade física e moral do/da seu/sua parceiro(a), não o submetendo a qualquer tipo de violência: nem directa, nem deslocada, nem auto-agressão, nem hostil, nem instrumental, nem aberta, nem dissimulada e nem inibida.

Art. 4º)
Todo(a) o/a namorado(a) deve defender a honra do(a) seu/sua parceiro(a) e contribuir para melhorar a sua auto-estima.

Art. 5º
Todo o indivíduo deve ser um suporte para o/a seu/sua companheiro(a), ajudando-o(a) a realizar-se como pessoa na relação a dois.

Art. 6º
Nenhum indivíduo deve agir para com o/a seu/sua parceiro(a) como se este/esta fosse um/uma servo(a) ou escravo(a), devendo, assim, respeitar as suas liberdades (de crença, de filosofia, de política, de associação, de propriedade, de igualdade e de segurança).

Art. 7º
Nenhum indivíduo deverá efectuar qualquer tipo de pressão, física ou psicológica, ao/à seu/sua parceiro(a), não podendo alegar qualquer desculpa para o efeito.

Art. 8º
É dever de todos os/as namorados(as) prestar compreensão, apoio, disponibilizar-se a dialogar para resolver os problemas e empenhar-se no dia-a-dia para tornar a relação amorosa cada vez mais sólida e feliz.

Disposições Finais:

Os direitos e deveres que constam neste documento devem ser cumpridos, sendo da responsabilidade de cada um assegurar que estes estejam a ser devidamente realizados, pois apenas desta maneira todos os namorados poderão relacionar-se de forma saudável, harmoniosa e segura, sem atentar aos direitos, liberdades e garantias que foram estabelecidas pela presente Declaração.

Os aspectos em que esta declaração for omissa, ou em que resultar dúvidas quanto à interpretação dos direitos e deveres, deve recorrer-se à legislação, conselhos e procedimentos emanados pela Comissão Para a Cidadania e Igualdade de Género - http://www.cig.gov.pt/.



CUMPRA-SE A LEI! BATER? APENAS SE FOR O CORAÇÃO!

Entrevista à Doutora Luísa Morgado - Professora de Psicologia da Universidade de Coimbra

Entrevistadora - Boa Tarde, sou uma aluna do 11º M, da Escola Secundária Maria Amália Vaz de Carvalho, vim fazer esta entrevista no âmbito de um projecto que estamos a realizar acerca da violência durante o período de namoro. Podia responder-me a umas perguntas, por favor?
Professora Luísa – Com certeza, se souber!

Entrevistadora – Em sua opinião o problema da violência é muito comum entre os jovens?
Professora Luísa – Não lhe posso responder com certezas, pois não existem estatísticas fiáveis que o digam, existem sim mais casos denunciados, mas não são seguros para estatísticas, porque antigamente as pessoas não denunciavam os casos.

Entrevistadora – Que causas podem estar na origem de comportamentos violentos no namoro?
Professora Luísa – Bem, digamos que cada caso é um caso, mas posso referir os mais comuns:
- Ter sido vítima de violência na infância e ter tendência a repetir comportamentos a que se foi sujeito;
- O sujeito pode ter tendência a afirmar a sua identidade, ao não ter capacidade intelectual, isto é não se conseguindo expor verbalmente, usa a violência para impor a sua opinião;
- Pode, inclusive, o agressor ter uma patologia associada, iniciar um processo psicótico, começando a manifestar violência;
- Pode ainda ser devido a álcool, drogas, etc., em que o agressor perde capacidade verbal, e perde a consciência dos seus actos.
- E pode também ser características de personalidade da pessoa.

Entrevistadora – Como deve a vítima lidar com o agressor?
Professora Luísa – A vítima, em primeiro lugar, tem de perceber qual a causa associada à agressão. Imaginemos que a causa é o álcool, a droga, ou psicose… em primeiro lugar a vítima deve, imediatamente, afastar-se do agressor; deve também avisar os pais do namorado do caso e este deve ter acompanhamento médico.
Em caso algum a vítima deve achar que tem culpa do sucedido, nada justifica a violência, mesmo que o agressor seja vítima. Caso parta para a violência, isso significa que não consegue resolver os problemas inerentes a partir da palavra.

Entrevistadora – Como se pode definir o perfil do agressor? No dia-a-dia é alguém igualmente violento?
Professora Luísa – Não se pode traçar um perfil de um agressor, as pessoas têm tendência a associar uma pessoa violenta a uma pessoa que é violenta no dia-a-dia, mas isso não é certo. O agressor é, normalmente, uma pessoa estimável com aqueles por que não sente posse. Já nos casos de violência no namoro, o agressor nesses casos tem um sentimento de posse sobre a vítima.

Entrevistadora – O que se entende por violência psicológica?
Professora Luísa – Violência psicológica é o caso de violência em que o agressor leva o outro a sentir-se culpado. Por exemplo: ficar amuado, ou dizer à vitima que não gosta dela; existe também violência psicológica a partir de questões financeiras (são obrigadas a fazer o que não querem a partir de doações).

Entrevistadora - Por que motivo muitas das vítimas de violência no namoro não terminam as suas relações?
Professora Luísa – Existem muitos motivos para a vítima não terminar as suas relações - pode ser por gostar do agressor, pode ser também porque o agressor, depois de ser agressor, é uma pessoa amorosa, pede desculpas e é muito carinhosa; a isto dá se o nome de ambivalente, isto é, a pessoa tanto é querida como é uma pessoa violenta. E pode também ser porque o agressor convence a vítima de que foi culpada.

Entrevistadora – Que mensagem deixa aos jovens namorados nos dias de hoje?
Professora Luísa – A mensagem que deixo é: Em caso de violência no namoro, deve-se logo avisar os pais, ou uma pessoa mais velha, e afastar-se do agressor. Deve-se também procurar ajuda junto de instituições, tal como a se dá notícia no vosso Blog.

Cidadania no Feminino


Em Portugal, apenas em 1976, com a nova constituição, é que as mulheres foram incluídas como cidadãs votantes. Eu pergunto-me quanto tempo é necessário para a sociedade perceber que o estigma de mulher que cuida da casa e é apenas objecto para a procriação, está mais que ultrapassado?! Uma mulher é um ser tão digno como outro qualquer. Por conseguinte, merece o mesmo respeito e mesma atenção, os mesmos cuidados. Sim, é verdade que existem diferenças a nivel físico e neurológico entre homens e mulheres, mas não são diferenças que justifiquem a discriminação que se verifica, ainda nos dias de hoje.
Mesmo que atendesse-mos a estas diferenças, seria, então, um facto que o homem é mais propenso ao desenvolvimento muscular, logo com mais capacidade para o trabalho fisico, e a mulher mais propensa a desenvolver a psique. Assim, veríamos a mulher na posição de topo de carreira, e o homem a lavar a roupa à boa maneira dos anos 50, no tanque. Seria um cenário bastante interessante. Por outro aldo, é facto também que existem muitos mais homens do que mulheres, e este cenário não se verifica só na Europa, em posições de topo. E sabe-se, também, que apesar de ser bastante explícito que não se pode fazê-lo, as mulheres grávidas tornam-se vítimas de discriminação, sendo afastadas dos seus cargos. Chega-se até ao ponto de, numa entrevista de emprego, ser questinado à mulher se esta pensa engravidar, como se isso a tornasse menos apta para o trabalho.
Não obstante tudo o que referi, a discriminação das mulheres, nomeadamente no mundo do trabalho, na própria família, na forma com são vistas pela sociedade, há algo ainda mais repugante – a violência física/ psicológica contra a mulher. Mulheres que, por amor, persistem toda uma vida sem dizer uma palavra sequer, mulheres que temem por chegar a casa, mulheres que têm medo de ser elas próprias, de falar, simplesmente. Estas situações ocorrem em todos os meios – rurais, citadinos – e da casa mais pobre, à mais rica, da mulher iletrada, à com maior nível educacional.
Neste tipo de violência, doméstica, o perpetrador usualmente é o marido, se bem que por vezes os filhos também podem ser os agressores, e a vítima a mulher. Em grande parte dos casos, esta opta por não falar, talvez por medo de represálias, talvez por vergonha pelos que a conhecem, talvez porque ainda tenha uma vaga esperança que o seu casamento de mal fadado ainda se torne num conto de fadas.
Eu conheci o caso de uma mulher que era vítima de violência doméstica. Ela faz parte da minha família mais afastada, sendo que é sogra de uma das minhas primas. Esta senhora tem-se mantido calada durante todo o seu casamento, que já dura há cerca de 25 anos. E ainda hoje surge com hematomas pelo corpo, mas já nem faz questão de tentar arranjar desculpas, pois já ninguém se dá ao trabalho de procurar saber o que se passou - a resposta já é evidente o suficiente.
O filho não intervém. Faz algo que me repugna, que é fingir que nada se passa. Não posso julgá-lo, nem tenho esse direito, mas…Apesar de tudo não consigo perceber porque razão ninguém interfere! É que até há algumas décadas a violência doméstica não era levada a sério, pensava-se que o que acontecia entre quatro paredes era responsabilidade única do casal, e a eles cabia resolver a querela. Assim, a legislação não estva preparada para intervir neste tipo de situações.
Felizmente hoje já não é assim, e existem leis formuladas para defender os direitos das mulheres, e protegê-las de agressões, tanto físicas ou psicológicas, por parte dos seus namorados ou maridos (existem também associações, como a Associação Portuguesa de Apoio á Vitima – APAV – que estão especializadas nestes casos, sabendo, portanto, como intervir, para que tudo se resolva pelo melhor).
Daí que o célebre ditado “entre marido e mulher, ninguém mete a colher” não deva prevalecer nos nossos dias.
Sabem, eu um dia destes gostaria que alguém me contasse que a senhora da qual vos falei já está separada do marido, que durante a noite correu para polícia, ou que se lembrou de fugir para a casa do filho. Gostava que me viessem noticiar que ela perdeu a vergonha de ser vítima e que resolveu gritar por ajuda. Que, finalmente, percebeu que quem é digno de ter vergonha é o seu agressor, que ataca alguém mais fraco, na tentativa de se sentir mais forte.
Talvez um dia tudo isto seja verdade, e assim o mundo se torne um bacadinho mais justo.


Bárbara Ferreira - 10.ºF - ESMAVC

Receio que não haja amanhã!


Já não consigo reconhecer a pessoa que encontro à minha frente. De olhos inchados, lábio rasgado e hematoma na face, ela insiste olhar para mim com aquele ar de sofrimento. Já não me reconheço, mas recuso-me determinantemente a aceitar que o reflexo que está à minha frente foi aquilo em que me tornei… Numa mulher submissa aos caprichos de um homem!
De olhar fixo no espelho ainda consigo identificar partes do antigo “eu”. Por baixo dos olhos inchados, ainda está o olhar doce e brilhante que ele tanto admirava. Por baixo do lábio rasgado, ainda estão os lábios que ele gostava de beijar e por baixo do hematoma, ainda está aquela pele delicada que ele tanto gostava de acariciar… Está tudo aqui! Só que ele agora já não gosta nem admira, e faz questão de me relembrar constantemente.
A maquilhagem carregada já não disfarça as marcas que inflige em mim diariamente. As desculpas de quedas constantes também já deixaram de ser credíveis. Sinto-me desesperada em encontrar uma solução, mas temo qualquer decisão que possa tomar. Porque hoje sei, que apesar de mutilada, ainda estou viva! Mas nunca posso garantir o amanhã…

Sofia Simões - Covilhã - Universidade da Beira Interior
(Pintura: Graça Morais)

Violência no Namoro e VIH - SIDA



Entrevista ao Doutor Marco de Almeida Pereira
Investigador do Instituto de Psicologia Cognitiva, Desenvolvimento Vocacional e Social da Universidade de Coimbra





Doutor Marco Pereira: Em primeiro lugar gostaria de agradecer o convite para responder a estas perguntas. Tive a oportunidade de espreitar o vosso blog e parece-me que reúne um conjunto de informações e histórias de grande interesse. Gostaria de reconhecer o mérito deste trabalho e de vos dizer que este blog não se fique apenas por uma tarefa escolar. Façam uma divulgação expansiva deste vosso trabalho.



1. Qual a relação entre violência no namoro e transmissão do VIH?
Doutor Marco Pereira: No meu ponto de vista existe uma relação de probabilidade. Por exemplo, nos países em que a prevalência da infecção VIH é elevada e em que as mulheres têm uma posição social baixa e de maior dependência económica, existe um risco elevado de infecção associado à violência sexual. Num parêntesis, há que ter em atenção que a violência no namoro é muito mais abrangente e não se circunscreve à violência sexual, mas a outras formas de violência, como por exemplo, violência física ou emocional.
A relação com a transmissão do VIH verifica-se sobretudo no seguinte: o sexo forçado ou mediante coacção aumenta a vulnerabilidade feminina, o por sua vez vai afectar o poder e capacidade das mulheres para negociar as condições das relações sexuais, em particular o uso do preservativo. Embora entre os adolescentes o uso seja cada mais frequente, muitas vezes o que acontece é que devido a um uso incorrecto, pode haver um risco maior de resultados mais adversos (entre os quais a transmissão de doenças sexualmente transmissíveis como a infecção por VIH). E, num outro parêntesis, ao contrário da informação que muitas vezes é veiculada, o uso do preservativo não serve exclusivamente para prevenir gravidezes indesejadas ou não planeadas: é um dos meios de prevenção mais eficazes da transmissão (por via sexual) do vírus da SIDA. Aliás, a visão do preservativo como método contraceptivo e não como uma forma de prevenir doenças sexualmente transmissíveis, associada à percepção de que o namorado é seguro e que é a pessoa que amam tem amplificado a ideia de invulnerabilidade à SIDA.
No contexto de uma relação, muitas vezes o maior obstáculo ao uso do preservativo diz respeito à confiança, já que solicitar a sua utilização poderá traduzir falta de confiança namorado. A ideia de que o amor protege é tão perigosa que não resisto a referir um excerto de uma entrevista que surgiu numa revista (salvo erro, a Gente Jovem) há uns anos atrás: as pessoas com quem tive relações foi porque as amava. E pensei que o amor nunca me fosse trair. A verdade é que traiu. Eu amava a pessoa, confiava na pessoa, logo não precisava do preservativo. Pensava que se uma pessoa gosta de verdade, nada acontece. E pronto, deu-se.

2. Como podem defender-se as vítimas de violência no namoro?

Doutor Marco Pereira: Em primeiro lugar, dizendo não a qualquer tipo de pressão emocional ou sexual. Sabemos que a violência no contextos das relações íntimas, tradicionalmente, a atenção tem sido dada à na mulher enquanto vítima (isto não é regra, mas de longe será a excepção).
Isto implica que os adolescentes (sobretudo as raparigas em posições de maior vulnerabilidade) treinem competências de comunicação, negociação e tomada de decisão; treinem capacidades de resolução de conflitos e promovam o pensamento crítico e a auto-confiança, permitindo, ao mesmo tempo a redução de comportamentos de risco, a modificação de estilos de vida menos saudáveis e a vivência de uma sexualidade mais integrada e, sobretudo mais responsável e responsabilizante.
A melhor defesa não será o ataque mas, no caso de vivenciarem uma “relação violenta” importa ter a capacidade para pedir ajuda e saber a quem recorrer. Se entenderem que os pais não serão o melhor recurso, algum professor da escola (em quem confiem) poderá ser uma boa alternativa. Em última instância, poderão sempre recorrer à Associação de Apoio à Vítima, que está mais que vocacionada para responder a este tipo de questões.

3. Que mensagem deixa para os jovens namorados?

Doutor Marco Pereira: Há um aspecto que me parece importante referir: a violência no namoro pode (de uma forma probabilística e não determinista) ser um indicador de violência numa relação formalizada (entenda-se como relação formalizada uma relação de casamento ou união de facto), naturalmente um indicador de mau (para não dizer péssimo) prognóstico. Pensando relação de casamento, acredito que todos conhecem casos de relações que se mantém durante anos num cenário de violência quase permanente. As razões para manter este tipo de relação são várias: desde a dependência económica, a existência de filhos, etc. Quero com isto dizer (e mesmo parecendo provocatório) que numa relação de namoro violenta, provavelmente as razões para manter uma relação desta natureza não serão tão “fortes”.
Por outro lado, é importante procurar compreender sentimentos como o amor e a intimidade e o respeito pelos princípios e valores defendidos por cada um, bem como uma tomada de consciência quanto à exploração sexual por parte dos outros, sem esquecer os aspectos relativos à responsabilidade quanto a si e ao outro no que directamente se prende com as emoções e comportamentos. E, muitíssimo importante, condenar todas as formas de violência (física; emocional; sexual; e mesmo a violência que se tem tornado comum na escola e que é conhecida como bullying) e, como referi na pergunta anterior, procurar ajuda. Em idades mais precoces é uma batalha violentíssima tentar lidar com uma situação destas sozinho(a).
11.ºM - ESMAVC

Ontem e hoje: ter a quem dizer...

(Imagem: Catarina Fonseca/ACTIVA 19 Fev. 2009)

A real diferença da violência no namoro actual com o de antigamente, encontra-se não nas estatísticas apresentadas, mas no entendimento das duas realidades, bastante distintas. Hoje em dia, as mulheres têm inúmeras associações e organizações de apoio à vítima de violência que ajudam a que relatem e acusem estes actos por parte dos transgressores, ao passo que mantêm o anonimato. Podemos ver, portanto, uma série de apoios institucionais, sociais e legislativos que defendem as mulheres e lhes dão Os meios para se defender. Quer através de campanhas, quer através de instituições como a APAV (Associação Portuguesa de Apoio à Vítima), a AMCV (Associação das Mulheres Contra a Violência), entre outras, quer através de Decretos-Lei, que regem estes casos, quer até mesmo por apoio popular, existe, sem sombra de dúvida, uma maior mobilização, que nos dá esperança e alegria para encarar o futuro.
Outrora, mais precisamente até à Revolução de 1974, a discriminação em função do sexo era de tal forma real que até era legitimada pelas leis. A mulher, até então, não tinha direitos para estudar, escolher uma profissão, viajar ou votar, entre outras coisas, e, consequentemente, não tinha direitos ou apoios para se defender: estava, portanto à margem de uma cidadania plena, como se fosse propriedade do homem. Vejamos: se ainda hoje a dependência que uma relação violenta cria, quer por medo, quer por amor cego, ou por receio de rejeição, faz com que muitas vítimas continuem caladas… imaginem como seria antes do 25 de Abril!
Com isto podemos concluir que a prevenção da violência cada vez mais ganha força; e os casos de violência doméstica poderão não ser uma realidade tão nova como parece, ao analisarmos estatísticas: apenas está a ganhar mais visibilidade. Podemos realisticamente dizer que, provavelmente, o pior já passou… Não significa isso que não haja muito a ser feito para combater este flagelo. Mas dar-lhe um nome, dar voz às pessoas vítimas de violência no namoro e no casamento… Só isso já é uma grande batalha ganha!

Tiago - EFA SEC2 - ESMAVC

O Poema e a Palavra

(Pintura: Caravaggio)

No namoro a palavra assume uma importância crucial: pode magoar-nos, atingir-nos como pedras... mas também pode elevar-nos, tornar-nos cúmplices... é pela palavra e pelo olhar que a confiança nasce na relação e se firmam os alicerces do amor... Então, em vez de palavras de ódio, viva o amor verdadeiro com palavras de amor! As palavras são como milagres e nada melhor que expressar sentimentos num poema, como este, que nos enviou João Correia:


She walks between the breezes
Of a nice summer sundown,
She`s looking at me, it seems
When I watch her between clouds.

She walks between trees
With a jealous girly smile,
She`s looking at me, it seems
And I seem to like her style.

She wonders between mountains
Where Man never have been,
Where she baths in golden fountains
In the great river of sin.

She walks between hearths
With a fragile beer-foot
She’s whispering at me, it seems
like she`s talking to all of earth.


João Correia - 11.ºC - ESMAVC

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Afinal... como sei se sou agredido ou agressor?

Antes de mais, convém referir que agressores todos somos, em algum momento da vida... o problema é quando somos violentos, quanto, sistematicamente tentamos magoar o outro, propositadamente.Por vezes as relações amorosas não se desenvolvem da forma idílica como sempre as perspectivámos, tão-pouco de forma saudável. Existem situações desagradáveis e conflitos que, sem darmos conta, fazem-nos perder o respeito pelo cônjuge e por nós próprios, começando, assim, a destruir o relacionamento e, pior que isso, a destruir-nos enquanto indivíduos.
Dentro de uma relação amorosa podemos identificar dois tipos de agressões: as agressões físicas e as psicológicas. O mais usual são essas agressões começarem por ser verbais, tais como insultos, humilhações, privações, desprezo, entre outras, e, como uma bola de neve, irem-se desenvolvendo até passarem (ou não) a agressões físicas.

Mas, afinal, como sei se sou vítima de agressão ou agressor? É preciso bater??? A resposta é NÃO! Podemos classificar as as formas de agressão em 3 grandes grupos:

1 - Agressão quanto à inteção do sujeito:
A- Agressão hostil: é uma agressão impulsiva, com o fim de prejudicar o outro, mesmo que daí não haja qualquer vantagem - exemplo: o namorado que bate na namorada apenas porque a apanhou em flagrante a conversar com um amigo;
B- Agressão instrumental: é uma agressão planeada, com uma finalidade, com um objectivo, independemente dos danos que possa causar - exemplo: a namorada que inventa intrigas sobre as amigas do namorado, de modo a afastá-las, por ciúme.

2 - Agressão quanto ao alvo:

A- Agressão directa: o comportamento agressivo dirige-se ao alvo que está na origem da agressão - exemplo: a namorada insulta o namorado porque este não chegou a horas ao encontro;
B - Agressão deslocada: a agressão dirige-se a um alvo que não é o responsável pela causa que deu origem à agressão - exemplo: a namorada que discute com a melhor amiga porque tem ciúmes dela com o namorado, o namorado que discute com a namorada porque se chateou com os pais, etc.;

C - Auto-agressão: a agressão do sujeito dirige-se a si próprio - o namorado que ameça suicidar-se se a namorada o deixar, a namorada que se agride quando se chateia com o namorado, etc.

3 - Agressão quanto à forma de expressão:

A-Agressão aberta - este tipo de agressão, que se pode manifestar pela violência física ou psicológica, é explícita, isto é, concretiza-se, por exemplo, em espancamentos, ataques à auto estima, humilhações.
B-Agressão dissimulada – este tipo de agressão recorre a meios não abertos para agredir. O sarcasmo e o cinismo são formas de agressão que visam provocar o outro, feri-lo na sua auto-estima, gerando ansiedade;
C- Agressão Inibida: o sujeito não manifesta a agresão para com outro, guardando-a para si próprio (por exemplo: o namorado que amua porque a namorada não quer ter sexo, guardando-lhe rancor).

De facto, não é muito fácil distinguir estas formas de agressão - até porque, normalmente, há uma cojugação de todas estas formas... É também normal que todos utilizemos este tipo de agressão, de vez em quando, num grau reduzido... O problema é quando qualquer destas formas de agressão está presente constantemente na relação... o problema está quando um dos namorados se sente constrangido, diminuido e até com medo... Aí já há qualquer coisa que não está bem!

A melhor forma de saber se é vítima de agressão no namoro é perguntar-se a si mesmo/a: como me sinto?

Pode também realizar testes de despiste em:

http://www.amorverdadeiro.com.pt/.

Acima de tudo lembre-se: não se isole! Fale com uma amiga, um familiar, um professor... ou simplesmente telefone para a linha de apoio, de forma gratuita e anónima: 808 202 148.

Daniel - EFA SEC2 - ESMAVC

Há sempre alguém para ajudar! - Associação de Mulheres Contra a Violência

(Pintura de Antonio López García)

Certo dia, quando saí da escola, qual não é o meu espanto quando me deparo com a irmã da minha melhor amiga, que tem cerca de 18 anos, com a cara toda marcada. Fui logo ter com ela, para saber o que lhe tinha acontecido. Foi, então, que fiquei a saber que o namorado lhe tinha batido - e que já não era a primeira vez (aliás, as cenas de pancadaria agravavam-se de dia para dia). Dessa vez, como em todas, o motivo da agressão foi estúpido (e outras vezes nem era preciso motivo): o namorado tinha acabado de chegar do trabalho e vinha chateado porque tinha discutido com o patrão; palavra puxa palavra, começou a chateá-la muito, porque queria à força toda que ela fizesse o jantar para os amigos dele. Contudo, como ela lhe disse que já tinha feito o jantar só para os dois (sugerindo-lhe que podia combinar com os amigos para outro dia)... ele ficou furioso! Disse-lhe que a função dela não era dar opiniões e, sem mais nem menos, espancou-a violentemente! Bateu até na filha, pequenina, só porque esta se colocou à frente!

Caros amigas e amigos... isto já não é só moralmente condenável... o que ele fazia e faz é crime!Então, falei com um professor e ele deu-me o conselho de ir procurar ajuda numa associação: Associação de Mulheres Contra as Violência. Nesta associação foram impecáveis: deram aconselhamento psicológico à minha amiga; encaminharam-na para aconselhamento jurídico; como a minha amiga tinha uma família estável e que lhe oferecia protecção, foi viver para casa dos pais dela... Nesta associação estiveram sempre disponíveis para ela, para a ajudar, e acompanharam o caso de perto (não se limitaram a reunir com ela de vez em quando). No fundo, estas pessoas da associação deram à minha amiga aquilo que lhe faltava: coragem e escudo de protecção! Não deram os passos por ela, mas ajudaram-na a caminhar, devagar, e a arranjar forças para reconstruir a sua vida com a filha (uma inocente, que, a pouco e pouco, se tornou numa criança feliz)!!!

No site desta associação há muita informação para as mulheres se puderem defender - tem até estratégias de segurança para sobreviventes de violência doméstica: http://www.amcv.org.pt/amcv_files/homemain.html. Se quiserem podem até carregar num botão do site e ninguém fica a saber que consultaram o site (a minha amiga, na primeira vez fez isso, porque o namorado ia sempre ver os sites que ela tinha consultado).

Passados dois anos ela junto-se com um rapaz, ao fim de um ano de namoro, porque ela viu que esse rapaz gostava mesmo dela - não porque dizia que a amava (porque dizer é fácil) mas porque no dia-a-dia tratava-a com respeito e com companheirismo. O homem que vive hoje com ela prometeu-lhe que iam ser muito felizes e que vai fazer com que ela se esqueça do passado triste que teve. E está a conseguir!Ele não a trata como se ela fosse uma rainha, nada disso! Trata-a apenas com amor (e isso é mais e melhor do que tratá-la como rainha)!!!


Sílvia Santos - CEF 1.ºB - Escola Secundária de Camarate

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Nem tudo o que reluz é ouro!!!

(Imagem: campanha da APAV)
Há algum tempo, uma amiga minha conheceu um rapaz e começaram a namorar. Ela ficou logo "cega de amor" e, ainda mal o conhecia, decidiu fugir de casa para ir morar com ele - ele tinha recebido um cheque e com esse dinheiro foi comprar roupa de marca e calçado para ela, pois ele dizia que fazia tudo por ela. Assim, foram para longe, morar numa barraca - como ela dizia "bastava um amor e uma cabana!".
Ao principio tudo era muito bonito... mas ele, com o passar do tempo, começou a meter-se na droga e a ficar violento; as coisas foram-se agravando ao ponto de ele a obrigar a roubar (afinal, o dinheiro não dá para sempre), e ela assim o fez, roubava e dava-lhe sempre o dinheiro que roubava, caso contrário ele batia-lhe e ameaçava-a.
Muitas vezes, com o dinheiro que ela roubava, ele comprava muita comida... mas a ela só lhe dava uma sandes por dia (e nem sempre dava... como ele dizia: "As mulheres não se querem gordas!"). Quando saíam ela só podia olhar para o chão... se olhasse para qualquer rapaz, mesmo sem qualquer outra intenção, ele batia-lhe mesmo ali... houve um dia que passaram por um grupo de rapazes; ela já sabia que não podia olhar e, claro, não olhou, mas ele decidiu na mesma bater-lhe à frente de todos - e o que dá mais raiva é que nenhum dos rapazes do grupo ajudou, aliás, um deles ainda se riu.
Quando ela viu que se enganou a respeito do rapaz por quem se tinha apaixonado cegamente, era já muito tarde... tentava fugir mas ele apanhava-a sempre e ainda era pior: quando chegavam a casa ele queimava-lhe os cabelos, sem qualquer explicação; muitas vezes, agarrava-a pelos cabelos e arrastava-a pelas escadas abaixo dizendo que a queria matar. As violência foi tanta que ela acabou por ficar cheia de hematomas, desfigurada... e por dentro sem se sabe! Desfeita!
A minha amiga não merecia tal sorte, não fazia mal a ninguém, mas porquê ela? Apenas porque foi demasiado ingénua e não soube proteger-se, digo eu.
Quando, certa vez, ficaram sem dinheiro, foram morar para casa dos pais dele; assustados, os pais dele perguntam o que se tinha passado, para a minha amiga estar feita num "farrapo". Ele, chantageada por ele, não teve outro remédio senão mentir e dizer que foi um grupo que lhe bateu quando ele não estava por perto... os pais acreditaram. Porém, pouco tempo depois, os pais aperceberam-se de onde vinham as agressões e, um dia, quando ele não estava em casa, encorajaram-na a fugir. E ela assim fez: apanhou o primeiro autocarro que viu e, chorando, andou sem destino; quando ele deu conta foi à procura dela, mas não a encontrou - e, com medo que ela o denunciasse, foi chamar o irmão dela para irem à sua procura. Já tinham procurado por todo a lado quando, de repente, o irmão a vê num autocarro a chorar e desfigurada, quase não a reconhecia; ele diz-lhe para descer... ela tem medo do namorado mas, como está lá o irmão dela, desce; o namorado disfarça e diz-lhe para voltar para casa, mas o irmão apercebe-se e diz que não, que ela vai para casa dela. E assim foi - o cobarde não teve coragem de enfrentar o irmão e, finalmente, tinha terminado o pesadelo!
A minha amiga chegou a casa esfomeada e cheia de sono; deram-lhe de comer e adormeceu. Quando acordou a mãe perguntou o que se tinha passado; ela, embora com receio, conta a verdade.... mas diz para não contar a ninguém. Nesse momento já ele estava na sala, a chorar, a dizer que queria falar com ela porque a amava, contando a mesma história falsa que contou aos pais dele. A mãe dela expulsou-o de casa e ligou ao padrasto dela, que foi atrás dele, para "resolver as coisas à sua maneira"... no entanto, ele fugiu a tempo e hoje está em parte incerta.
Devo dizer que não concordo com a forma de o padrasto da minha amiga tentar resolver as coisas, "à sua maneira", até porque hoje, felizmente, já há muitas instituições de apoio à vítima e à mulher que é agredida... é um caso de polícia, que deve ser resolvido pelos tribunais - caso contrário, violência só gera mais violência.
O que gostaria de dizer as todas as raparigas é que tenham cuidado, que não se precipitem nas relações... antes de qualquer decisão é preciso conhecer o namorado, a pouco e pouco... Sobretudo, se forem agredidas não se deixem chegar ao ponto que esta minha amiga chegou... peçam ajuda! Afinal, o medo não resolve nada e, com o silêncio, apenas vamos ficando mais pequenas e com menos forças.

Ângela Teixeira - CEF 1.ºB - Escola Secundária de Camarate

O Ciúme É Como O Sal

Por mais que tentemos encontrar uma definição... o amor é algo sem muita explicação, porque o amor é um sentimento profundo que nos escapa, que não podemos controlar. É algo que nos provoca várias emoções: tristeza, alegria, dor, euforia, frutração, felicidade... controlar essas emoções é sempre um pouco difícil. Talvez por isso muitos namorados percam o controlo com os seus parceiros, normalmente por ciúme e posse, que também é uma emoção forte que afecta muitos casais (um pouco de ciúme não faz mal... mas ciúme doentio... isso sim, faz muito mal). Pois bem... o amor é algo que não podemos controlar, mas a dignidade podemos controlar!
A minha prima tem um namorado que é muito ciumento; ao princípio era apenas um pouco ciumento... mas ela não se foi impondo e, a pouco e pouco, hoje ele acha que já tem poder absoluto sobre ela. Muitas das vezes chega a tratá-la como um objecto que ele sente que tem poder (posse). Ele diz-lhe abertamente que o homem é que manda e que ela não pode ter amigos, porque os amigos dele é que têm de ser os amigos dela.
Sinceramente não acho nada correcta esta atitude, pois os amigos são para sempre, podemos chegar a conhecer pessoas novas e mudar de namorados... mas os amigos ficam para sempre. O mais grave é que sempre que estou com este casal há violência (por ciúmes)...O que fazer para mudar?
Bem, penso que para mudar é preciso, antes de mais, que os dois namorados queiram mudar; com o ciúme não podemos acabar, mas podemos controlá-lo, e, se não conseguirmos respeito por parte do namorado... podemos simplesmente dizer não e procurar um verdadeiros amor (é que, ao contrário do que se julga, ter ciúmes não significa necessariamente que se tem amor)!
… Por isso, digam sempre não à violência!! O ciúme é como o sal: quando é pouco... tempera. Quando é demais... amarga e faz mal ao coração!
Rosa - CEF - 1ºB - Escola Secundária de Camarate

A propósito da distinção entre agressividade e violência

(Pintura: Barahona Possolo)

Todos os animais são agressivos mas só um animal é violento – o animal racional.
A agressividade faz parte integrante da natureza animal, é uma estratégia de sobrevivência, geneticamente programada que, em determinadas situações e face a estímulos adequados, mobiliza os recursos e a energia do organismo para a sua preservação. No ser humano, tal como nos outros animais, a agressividade tem um valor de sobrevivência e é determinante para que tenhamos sucesso ou para vencer numa competição.
A agressividade torna-se violência quando a ânsia de vencer, de dominar, não considera o outro como pessoa, não respeita o seu valor e dignidade. Dizemos que uma competição entre atletas é agressiva quando cada um usa toda a sua força e engenho para vencer os demais, precisamente porque os reconhece como fortes, como válidos, como capazes, e é em nome dessas qualidades, dessa competência, que quer vencer, isto é, quer mostrar que também é capaz, que é digno de reconhecimento. Pelo contrário, se faz batota, a competição deixa de ser válida porque se desconsiderou o mérito próprio e o mérito do outro.
É quando estamos voltados para nós próprios, e de costas para os outros, que nos tornamos violentos – sentimo-nos o centro de tudo, achamos que tudo nos é devido (mesmo que o não alcancemos por mérito); exigimos que os outros nos vejam da mesma forma, que nos vejam como nós nos vemos – como únicos; e zangamo-nos se isso não acontece.
A violência surge na confluência entre o narcisismo e a vontade de domínio – somos violentos quando queremos possuir pela força, quando submetemos o outro aos nossos desejos sem atender aos seus desejos, quando queremos impor a nossa razão sem escutar outras razões. A violência tem a ver com a incapacidade de olhar o outro, de o reconhecer como pessoa, de respeitar a sua dignidade. São violentos os actos, gestos ou palavras que, deliberadamente, procuram anular o valor do outro, que procuram diminuí-lo para que possamos surgir como únicos em todo o nosso (falso) esplendor. Violento é o que mata, espanca ou tortura em nome de desígnios e vaidades pessoais (o animal luta pela sua sobrevivência); violentos são os gestos de desprezo; violentas são as palavras que querem ofender; violentos são os gritos que não querem que outras vozes se oiçam.
Só há violência quando há intenção de magoar, por isso o homem é o único ser violento porque é o único que age intencionalmente e que tem consciência das suas acções. Parece que a racionalidade é um requisito para a violência. No entanto, a mesma racionalidade que me ajuda, conscientemente, a humilhar o outro, também me permite pensar que é errado maltratá-lo.
O que é que nos torna violentos? O que é que faz com que em nós, humanos, a agressividade muitas vezes não cumpra a sua função, transborde os seus domínios e se torne violência? O que é que faz com que tapemos os ouvidos à voz da pura razão que nos diz que devemos ver a humanidade nos outros e em nós próprios? O que é que faz com que não consigamos escutar o coração quando nos ordena que amemos os outros como a nós mesmos? Porque é que a história da humanidade está cheia de guerras, de atrocidades, de egoísmo?
Dizia K. Lorenz no seu livro A Agressão, Uma História do Mal :”O amor e amizade devem compreender toda a humanidade e devemos amar todos os nossos irmãos humanos sem discriminação. Este mandamento não é novo. A nossa razão é perfeitamente capaz de compreender a sua necessidade e a nossa sensibilidade é capaz de apreciar a sua beleza. E no entanto, tal como somos feitos, somos incapazes de lhe obedecer”. Porque é tão difícil a via do amor?
Reflectir acerca da violência arrasta-nos para o insondável mistério do mal e para a dualidade da natureza humana. Egoísta, vaidoso, cruel, mas também inteligente, sensível e capaz de amar, o homem é esse ser intermédio de que falava Platão. Esse ser que não se consegue definir, que vive nessa terra sem nome a meio caminho entre os deuses e as bestas, sem saber onde é a sua casa; esse ser que não é nem deus nem besta e que oscila ora para um lado ora para outro, como se o seu olhar estivesse ofuscado por uma névoa.
Narcisismo, vaidade, egoísmo, vontade de domínio, mal ... São estes, para mim, os caminhos da violência que, de tantas vezes cruzados, acabam por se tornar caminhos de vida. Todos gostaríamos que a humanidade enveredasse por outros caminhos. Penso que devemos começar por não esquecer que existem outras possibilidades, mesmo que a princípio nos pareçam veredas ou ruelas. As autoestradas, as vias rápidas, os itinerários principais, que nos seduzem com as suas promessas de rapidez e nos convidam a viver avidamente a vida (para chegar aonde?), são muitas vezes caminhos de desgaste e de morte. Pelas estradas secundárias caminha-se mais lentamente mas a paisagem é muito mais bela – se calhar porque vamos mais devagar e conseguimos prestar atenção ao que nos rodeia. Prestar atenção aos outros, parar para pensar, contemplar o que é belo – são estas algumas das coisas que nos podem ajudar a encontrar outros caminhos, que nos podem ajudar a limpar a névoa e a reeducar o olhar.

Ana Goulart - Coordenadora do Departamento de Filosofia da ESMAVC

terça-feira, 26 de maio de 2009

O QUE OS PAIS PODEM FAZER???

(Imagem: pintura de Paula Rego)

Eis parte de um artigo muito interessante retirado da revista Activa online: (Catarina Fonseca, Fev de 2009):

"O que os pais podem fazer?
Podem, antes de mais, transmitir muito claramente, no seu discurso e comportamento, que a violência é inaceitável, em qualquer circunstância e qualquer que seja a desculpa”, defende Carla Machado.
“Podem educar os filhos para serem assertivos (não agressivos) e terem consciência dos seus direitos. Podem enfatizar a ideia de que o respeito faz parte integrante do amor. E que o amor não implica anulação nem fusão com o outro.”
“Tudo passa por estar atento e mostrar disponibilidade para ouvir o filho e para o perceber”, explica Maria Neto Leitão. “Se os miúdos sabem que os pais não vão aprovar o namoro, é óbvio que não lhes vão dizer nada. Os pais têm de perceber que os filhos não são deles, são do mundo. Isto é um assunto muito ligado à sexualidade, e quando não desenvolvemos este trabalho desde a infância, na adolescência a situação pode complicar-se. O aprender a construir relações
afectivas positivas vem desde a relação que construímos com os pais, desde a forma como nos pegavam, seguravam, lidavam com o nosso corpo."

HÁ SEMPRE UMA SAÍDA!


Infelizmente há pessoas que têm de mudar de vida, de uma forma drástica, para que possam finalmente vivê-la. O depoimento seguinte vem mostrar como estas situações são bem reais.
A minha amiga Maria veio contar a sua experiência nesse campo.
“Durante muito tempo, vivi uma situação de sufoco, sem saber o que dizer, nem o que fazer para mudar a situação em que vivia naquela altura. Até que chegou a altura em que disse, “basta”! Já não aguento mais, estou farta desta vida! Não tenho privacidade alguma, tenho de dar satisfações de tudo e nada, para onde vou, com quem estou, entre outras coisas. E, ainda por cima, como não ficava satisfeito com as respostas dadas, achando que o estava a enganar, dava-me grandes tareias, provavelmente achava que era assim que as coisas iriam melhorar. Estava redondamente enganado: a situação só teve tendência a piorar.
Naquela altura, já mãe do primeiro filho que tive com ele, tentei pedir ajuda à minha mãe; consegui, felizmente, mas como por vezes tem-se a mente fraca, acabei por perdoá-lo, pensando que não iria voltar a passar pelo mesmo inferno. Enganei-me! Pois voltou tudo ao início, acabei por engravidar do segundo filho, o que é que eu fui fazer! Tive como primeiras palavras o seguinte: “essa criança não é minha”. O que fariam vocês no meu lugar? É difícil não é?
Só quem passa por estas situações, é que poderá dar uma resposta ao problema, e, ainda assim, nem sempre é possível. Tal como vos disse lá atrás, tive de parar com os maus tratos que sofria, até porque já começava a afectar os meus filhos tanto psicologicamente como fisicamente, e não estava com mais forças para tal. Então o que fiz? Tive sangue frio o suficiente e esperei que ele cometesse mais algum acto de violência, para que depois não perdesse a razão, ao abandonar o lar com os meus filhos, que aliás foi o que acabei por fazer.
Depois de cometido esse acto, levei apenas a roupa que tinha no corpo, tal como os meus filhos, dirigi-me a Palmela, à Santa Casa da Misericórdia, onde pedi ajuda, pois já não tive coragem de pedir auxílio à minha mãe. Lá, deram-me uma ajuda, em termos psicológicos, e quando acharam que estava melhor para receber outro tipo de ajuda, transferiram-me para a Instituição APAV (Associação Portuguesa de Apoio à Vítima), onde me deram todo o apoio que necessitava para recuperar a minha vida, e poder seguir em frente sozinha, sem medos nem receios.
Da APAV recebi os seguintes apoios: de início recebi um grande apoio de uma vasta equipa de psicólogos. Para além disso, obtive trabalho para ter um pouco de independência. Ao princípio confesso que foi difícil a adaptação, porque sempre que queria marcar encontros com a minha família tinha de ser longe do local onde habitava, já que essa era a forma que eles tinham para proteger as pessoas (era de nunca se saber onde essas mesmas moravam, e, mesmo assim, ainda mudei de casa umas duas ou três vezes, porque o pai dos meus filhos acabava sempre por me encontrar, não me perguntem como porque nem eu mesma sei). Por fim, fui transferida para o Algarve, onde foi a última vez que estive ao abrigo da APAV; depois de tantos tratamentos aos quais fui submetida, para me poder tratar de todos os problemas que adquiri durante aquele tempo todo em que fui vítima de maus tratos, depois de já estar a trabalhar e de já poder dar uma vida digna aos filhos, a APAV, encarregou-se de me arranjar uma casa, deume asas para poder voar mais alto, mas estando sempre com os pés bem assentes na Terra. Agradeço, todas as noites todo o apoio que me deram e principalmente o voto de confiança, porque infelizmente há pessoas que levam mais tempo a restabelecer-se e, por isso continua ao abrigo, de associação. Foram cerca de quatro anos, os quais eu nunca irei esquecer. MAS TAMBÉM NUNCA ESQUECEREI QUANDO RESPIREI DE ALÍVIO E VI QUE PODIA SER FELIZ!
De momento, estou muito bem comigo própria e com os meus filhos, vivemos no Algarve, mais propriamente em Albufeira, e é claro vivo sozinha com eles. Fico contente por ter conseguido ultrapassar toda esta situação, mas mais contente fico por ter sido a tempo, embora tenha ficado com sequelas, uma delas a depressão que ainda hoje, passado tanto tempo, ainda vai dando sinal de si. Espero que com este depoimento as mulheres deste país, deixem de ter medo, e que não se submetam aos seus parceiros ou parceiras, dado que esta situação há em ambos os sexos, e que tomem decisões, decisões essas que, acreditem, podem mudar a vida de uma pessoa a 100%, mas é preciso pensar muito bem no assunto, porque um passo em falso e a nossa vida pode acabar ali.”
Nota:
APAV
Associação Portuguesa de Apoio à Vítima
Esta é uma instituição particular de solidariedade social, sem fins lucrativos, e pessoa colectiva de utilidade pública, reconhecida, que tem como objectivo estatuário e missão social a prestação de serviços às vítimas de crime, prestando-lhes informação, aconselhamento e apoio emocional, jurídico, psicológico e social.

Trabalho realizado por: Carina – Curso EFA Sec2 – ES Maria Amália Vaz de Carvalho

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Salva pelo amigo...

(Pintura de Nuno Castelo, "Momentos de Civilização"

A violência é das formas mais injustas e cruéis de resolver o que quer que seja. Principalmente entre jovens, enquanto são namorados!
Ana era vítima de maus-tratos por parte do namorado.
Um dia, Ana, ao sair de casa, sentiu que estava a ser observada, mas pensou que fossem apenas “coisas da sua cabeça”… e continuou o seu caminho para ir ter com o seu amigo João, que conhecia desde criança.
Depois de chegar ao local combinado e de cerca de meia hora de conversa, Ana viu aparecer o seu namorado, Pedro.
Quando ela lhe perguntou o que ele estava ali a fazer, ele não disse nada; arrancou-a do lugar onde estava pelos cabelos e começou a puxá-la para a levar para sua casa. Ao ver isto, João socorreu a amiga, espancando Pedro. Ana perguntou a Pedro por que é que ele tinha reagido assim e como é que ele sabia que ela estava ali. Pedro, ainda estendido no chão, disse que tinha contratado um homem para a seguir, para se certificar que ela não cometia nenhuma asneira (denunciar os maus-tratos de Pedro).
Ana não disse mais nada, olhou para João e saíram os dois do local, deixando Pedro estendido no chão.
E se João não estivesse lá? O que é que Pedro teria feito a Ana? Por vezes encaramos a violência no namoro apenas como maus-tratos físicos… mas a perseguição, desconfiança, também são formas de violência.
Por muito que o nosso desejo seja evitar que o “nosso amor” sofra, não podemos ficar caladas, como uma criança pequena com medo de contar aos pais que comeu o último pedaço de chocolate. Devemos sempre denunciar qualquer acção que consideremos violenta e acabar com a ilusão que é a última vez, porque as ‘’últimas vezes’’ vão-se repetindo cada vez mais e deixarão de ser apenas casuais para passarem a fazer parte da vida do casal.

Joana Gabirra - 11.ºF - Escola Secundária Maria Amália Vaz de Carvalho

Quem ama não agride

A violência no namoro é um tema que, felizmente, tem vindo a ser abordado em várias notícias, tornando-se, assim, um problema com mais visibilidade no nosso quotidiano.Porém, o que se conclui é que os casos são muito mais do que seria desejável - não sabemos se os casos têm vindo a aumentar, mas, sem dúvida, sabemos que os casos denunciados são cada vez mais.
Segundo fontes recentes, 25% dos jovens, dos 15 à 25 anos, ja foram vítimas de violência no namoro. Os rapazes são os que agridem com maior gravidade na chamada “pequena violência”.
A violência na relação inicia-se cada vez mais cedo e desempenha um caminho de instabilidade emocional que irá reflectir-se também nas relações adultas - tais como, insultos, ameaças, empurrões, pressão psicológica, e até mesmo bofetadas, murros, pontapés e agressão sexual. Estas atitudes são desvalorizadas e até desculpabilizadas pelos protagonistas - “ele só fez isso porque estava cheio de ciúmes e descontrolou-se. Foi uma prova de que gosta de mim!”.
Vejamos este caso: A Marta apaixonou-se por um rapaz mais velho do que ela 4 anos. Como era mais nova e menor de idade, assumia como natural a atitude de controlo por parte do namorado: “ele pensava no melhor para mim e protegia-me!”. Deixou, então, de sair com os amigos (porque o namorado a fez acreditar que estes eram má influência para si). Passou a viver em função dele e a anular-se por completo. Era o namorado quem decidia onde iam e a que horas iam. No ano em que entrou para a Universidade, aquilo que era entendido como ciúme de amor passou a ser um ciúme doentio: o namorado mudou-se de malas e bagagens para a cidade onde a Marta ia estudar e controlava todos os seus passos. Durante um ano de namoro, a Marta desculpou e aceitou a postura do namorado, mas agora sentia-se sufocada e não encontrava uma saída. O namorado começou a ser mais violento e agredia-a fisicamente sempre que contrariado.
No dia em que a Marta decidiu terminar o namoro, ele ameaçou-a de morte e também que se suicidava. A relação acabou depois de alguns meses de pressão psicológica.
O facto é que, apesar de haver tanta informação divulgada sobre este assunto, “violência no namoro”, as jovens continuam a idealizar o amor incondicional, sem limites ou barreiras e, para elas, o namoro surge também e ainda como uma forma de afirmação social: “prefiro ter um namorado mau do que não ter nenhum!”. São poucas as mulhes ou vítimas de violência que tomam coragem e denunciam os abusos que têm sofrido durante a relação - mas essas poucas, que se afirmam, estão no caminho certo.
Florinda Semião - 11.ºM

Outro caso mais...

A violência no namoro é um problema que, infelizmente atinge muitos jovens, mostrando mais um podre desta sociedade. Muitos destes crimes de violência física e/ou psicológica passam impunes pela justiça. Certa vez assisti, em pleno dia, a um caso de violência física, por parte de um rapaz de 18 anos a uma rapariga de 16 anos. Tudo se passou no Verão, num hotel, devido a uma discussão insignificante: a rapariga não queria ir para o quarto deles mas sim continuar na piscina; então, o rapaz deu-lhe um estalo na cara que a deixou logo inconsciente.
Quando foi chamada a polícia, esta disse que não podia fazer grande coisa, pois não havia provas suficientes da agressão e só podia fazer algo se a rapariga apresentasse queixa. Tendo em conta que esta, quando acordou, estava muito assustada e, naturalmente, com medo do namorado, não quis apresentar queixa.
Mais uma vez, e apesar das inúmeras provas contra o agressor - como os relatos das pessoas que, tal como eu, assistiram a tudo e estavam dispostas a dar o seu testemunho, bem como as câmaras de vigilância do hotel - não foi feita justiça. Acho que é importante perguntar à justiça deste país o que vai ser feito desta rapariga? Provavelmente ficou traumatizada e vai voltar a sofrer maus tratos físicos e psicológicos por parte do namorado… No entanto, ninguém sabe bem a resposta, pois isto não passam de suposições; na verdade lamento que ninguém queira saber, ninguém se interesse. Era apenas mais uma rapariga, não era filha, sobrinha, nem sequer amiga, para as autoridade é apenas mais um caso de violência no namoro, como existem tanto outros. Hoje em dia, esta mentalidade já mudando na sociedade e entre as autoridades, graças às campanhas de prevenção que têm sido feitas a nível nacional.
Apesar de não ter conhecimento de nenhum caso de violência psicológica, é sabido por todos que este tipo de violência existe! E, por vezes, pode deixar marcas muito mais profundas do que uma ferida. Este tipo de violência pode deixar as vítimas com vários traumas, como, por exemplo, depressões, falta de auto-estima, etc. Na minha opinião a justiça devia ter uma punição muito mais severa para estes crimes, porque a violência doméstica é, muitas vezes, praticada por jovens que começam a agredir as namoradas ou namorados, tudo pode começar com a violência no namoro, logo, devia haver uma atenção especial.Este é um problema realmente grave, o controlo, a pressão psicológica, as agressões físicas, estragam a adolescência do(a) jovem, além de ser óbvio que não é uma relação saudável. É um assunto a que se devia dar mais atenção, pois é realmente importante e grave.



A. - 10.ºF - Escola Secundária Maria Amália Vaz de Carvalho
(Imagem: O grito, 1983 - Munch)

sábado, 23 de maio de 2009

Apoio Institucional: Comissão para a Igualdade de Género

Nalguns artigos do Blog, e em vários e-mails que recebemos, apela-se a "quebrar o silêncio"... no entanto, muitas pessoas não sabem como quebrar esse silêncio, a que ajudas recorrer. O conselho que deixamos é que as vítimas, e até as testemunhas e agressores, procurem ajuda institucional - nada melhor do que profissionais, com experiência no terreno, para esclarecer dúvidas e delinear um projecto de intervenção, caso a caso. No Blog temos links para 2 instituições que prestam apoio e aconselhamento na área da violência no namoro - a APAV e a CIG - há ainda a linha de apoio gratuita, como ao lado se apresenta.
Muitos cibernautas questionaram-nos ainda sobre a actividade da CIG - comissão para a igualdade de género (Como se dirigir a esta comissão? Quais as suas funções? etc.). Pois bem, o site desta comissão tem informação sobre as questões apresentadas, de uma forma simples e clara; podem aceder através do link no final do post.
Deixamos aqui algumas informações retiradas do site:
Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género
A Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género (CIG) é um organismo da Administração Pública, com sede em Lisboa e uma delegação no Porto, integrada na Presidência do Conselho de Ministros e tutelada pelo Secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros
Missões:
- Reforçar o combate à desigualdade de género em todos os domínios da vida social, política, económica e cultural. Este plano corresponde a uma fase de consolidação da política nacional no domínio da igualdade de género e de uma cidadania que integra os Direitos Humanos e contribui para o aprofundamento da democracia;
- Consolidação de uma política de prevenção e combate à violência doméstica, através da promoção de uma cultura para a cidadania e para a igualdade, do reforço de campanhas de informação e de formação, bem como do apoio e acolhimento das vítimas numa lógica de reinserção e autonomia;
- Promoção dos Direitos Humanos através de uma análise compreensiva do tráfico de seres humanos, para o desenvolvimento de uma resposta e combate efectivo a esse fenómeno, com uma cooperação multidisciplinar entre os diversos agentes envolvidos.

Serviços de Atendimento ao Público:
Informação Jurídica
A CIG fornece informação jurídica gratuitamente sobre toda a legislação pertinente para a área da cidadania e igualdade de género. Esta informação é disponibilizada a pedido, por carta, correio electrónico ou telefone. A CIG faz ainda atendimento individual, com marcação prévia, nas suas instalações.

Contactos:
Morada
Av. República n.º 32, 1.º
1050-193 Lisboa

Rua Ferreira Borges n.º 69, 2.º C
4050-253 Porto

Telefone
21 798 30 00; 22 207 43 70
Fax
21 798 30 98; 22 200 38 48
Email
cig@cig.gov.pt; cignorte@cig.gov.pt
Website
http://www.cig.gov.pt/

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Como é possível fingir?


Assisti a um caso de violência no namoro por parte de um casal muito próximo de mim e gostaria de partilhar essa má experiência.
Numa noite de Inverno estava com a minha amiga em casa do seu namorado; entretanto ele chegou a casa completamente bêbedo e com uma garrafa da cerveja na mão. Sem qualquer motivo, começou a implicar com a namorada.
A minha amiga não se rebaixou e começaram a discutir e chamar-se nomes impróprios - as coisas agravaram-se de tal maneira que chegou ao ponto de ele lhe bater e deixar lesões muito graves. Eu tentava evitar que o pior sucedesse, mas sem grande êxito… Foi um momento de muita aflição!
A páginas tantas, ele partiu a garrafa, que trazia na mão, e ameaçou cortá-la; felizmente, eu e a minha amiga conseguimos evitar o pior. Mas a discussão continuou (pareceram séculos) e ela acabou por agarrar num banco e atirar-lho, deixando-o deitado no chão, inconsciente; de seguida, pegou no namorado e deitou-o dentro da banheira, para ele ficar melhor da bebedeira. Depois de ele ter feito o mal, pediu-lhe desculpa, tal como acontece em quase todos os casos.
Pensei que a relação deles tinha terminado ali – e, diga-se, da pior maneira… Mas enganei-me! No dia seguinte estava tudo bem entre eles, como se nada se tivesse passado. Ainda tentei falar com a minha amiga, mas ela disse que aquilo que se tinha passado era apenas “um mau momento” porque a maior parte das vezes até se davam bem!
A minha pergunta é: como é que as pessoas conseguem fingir que estão bem, depois de terem passado por momentos como este? Como é que se pode fingir que há dignidade? Como é que se pode chamar “mau momento” a uma discussão tão grave como aquelas, que pôs em risco as suas próprias vidas? Em minha opinião não interessa se aquela discussão durou um segundo e os momentos felizes tenham durado um século… esse segundo de violência pesa muito mais do que todas as desculpas e beijos do mundo! Fingir o contrário é o pior remédio.


Sandra Santos, n.º13, CEF 1B – Escola Secundária de Camarate
(Imagem: trabalho de Moisés - retirada do blog do sapo Edf-artes)

Mensagem da Presidente do Conselho Executivo - Dr.ª Maria Baltina Coroadinha


1 - Ao longo dos anos, como Presidente do Conselho Executivo, tem assistido a muitos casos de violência no namoro?
R: Não, nem por isso, poucos casos chegam aqui ao conselho executivo. No entanto, apercebo-me que nos últimos dois anos esta situação tem vindo a agravar-se.

2 - Considera que este problema se tem acentuado desde o 25 de Abril a esta parte?
R: Diria que desde o 25 de Abril até hoje passaram-se muitos anos, a nossa sociedade sofreu muitas mudanças, a mentalidade dos jovens é diferente, os interesses mudaram, é-lhes dada mais liberdade; contudo, poderei dizer que nem sempre a aproveitam ou lidam com ela da melhor maneira.

3 - Como lida o Conselho Executivo com estas situações?
R: O conselho executivo apela à atenção dos jovens, realizando campanhas e organizando debates sobre e contra a violência: é muito importante envolver todos os actores educativos e dar visibilidade a este problema. Todavia, não é comum tais situações chegarem ao meu conhecimento, porque os jovens vitimizados provavelmente sentem vergonha de fazer a denúncia, tentando resolver a situação pelos próprios meios. É importante que esse jovens não se sintam sozinhos.

4- Em sua opinião, o que leva os jovens a ser violentos no namoro?
R: Essa é uma questão muito complexa; penso que quando os jovens possuem um carácter violento são violentos por uma razão qualquer, que deve ser resolvida… A violência no namoro é apenas uma parte do problema.

5 - Considera que é mais frequente a violência de namorados para namoradas?
R: Sim, é mais frequente a violência sobre a mulher, isto é, de namorados para namoradas; a igualdade de género é ainda um desafio para a nossa sociedade e essa educação para a cidadania começa por construir-se aqui, na escola.

6 - Que mensagem gostava de transmitir para os jovens namorados?
R: Gostaria de apelar-lhes para que não sejam violentos; a violência não resolve problema algum, bem pelo contrário: agrava. No namoro é necessário: confiança, lealdade, respeito, diálogo, amizade e muito amor!

Entrevista realizada por: Ana Catarina e Pedro Portela 11.ºM

Mais vale não ter namorado do que ter um mau namorado!


O amor é um sentimento que vem do coração, é um afecto profundo de dedicação a outra pessoa – dedicação essa que tem de ser recíproca, com base num compromisso sólido. Quando há amor não deve haver agressão! É importante respeitar a liberdade do outro, ser-se compreensivo, confiar e não estar sempre obcecado com traições (só assim podem ser ambos felizes).
Não tenho a mínima ideia porque acontece a violência no namoro, podem dar-se muitas desculpas… mas nenhuma desculpa pode ser aceite! Não há motivos bons para se ser violento e para se deixar ser vítima de violência – nem ciúmes, nem uns “copos a mais”, etc.
Talvez o sentimento mais importante para uma relação é o sentimento de respeito. Quem é vítima de violência deve lembrar-se que não deve perder o respeito por si mesmo. Se não se reagir, fica-se preso na relação violenta.
É muito triste ouvir amigas minhas dizer: “Mais vale ter um mau namorado do que não ter nenhum namorado!”. Eu digo-lhes sempre: “Mais vale ter respeito por nós mesmo do que não ter respeito nenhum!”. O equilíbrio da nossa auto-estima é um factor muito importante para a nossa saúde psicológica e, afinal, se não gostarmos de nós mesmos… quem é que vai gostar? Se não percebermos que há um problema… quem é que vai resolver? Se não procurarmos ajuda… como é que podemos ser ajudados?


Débora, n.º4, CEF 1B – Escola Secundária de Camarate

VIOLÊNCIA POR SMS E MSN


(veja a história de BD completa em: http://www.monica.com.br/comics/piteco/pag1.htm)


A informatização do mundo é hoje um facto à escala global. Poucos são os cantos do globo onde não existe Internet, rede móvel, entre tantos e tantos outros meios de comunicação – em massa e para massas. Aliás, a nossa sociedade há-de ser, um dia, apelidada de “Sociedade da Informação” (em muitos casos, informação até demais, diremos nós).
Como não poderá deixar de ser, essas novas dinâmicas de comunicação interferem e influenciam a sociedade: o seu acesso ao conhecimento, a novos modos de pensar e agir e, claro, também novos modos de sentir – cada vez mais os meios informáticos são um canal, por excelência, para comunicar afectos; em muitos casos, namorar é sinónimo, ou pelo menos em grande parte, de MSN e SMS. Esta nova realidade não pode passar despercebida, não podemos falar em relações de namoro sem falar na forma como elas se sustêm e dinamizam: o computador e o telemóvel (quantos e quantos namorados se conhecem, nos nossos dias, através da Net, seja pelo Messenger seja pelo Hi5?).
Pois bem, pirataria informática é um termo de que todos já ouvimos falar e que faz parte do nosso quotidiano. “Relações” e afectos informáticos… também. Mas… E violência informática?
Como ficou patente nos trabalhos que realizámos, o comportamento agressivo não se esgota na violência física (e, muitas vezes, não começa com ela: é uma dinâmica em avalanche, que vai crescendo e crescendo). Sempre que o outro (namorado/a) não é respeitado na sua individualidade (como diria Kant: sempre que o outro não é visto como um fim em si mesmo, mas apenas como um meio), podemos falar em violência (variando, obviamente, de grau e de intensidade).
A questão essencial é: já alguma vez nos sentimos “agredidos”/ “invadidos”/ “desconsiderados” pelo/a namorado/a via telemóvel ou mail/msn? Como?
Assim, num inquérito, de resposta livre, realizado na nossa escola, obtivemos algumas respostas-exemplo:
- Via telemóvel: SMS com conteúdo impróprio; chantagem via SMS; não resposta a SMS durante largas horas ou dias; mexer no telemóvel para vigiar as SMS e chamadas; estar a enviar SMS de 30 em 30 segundos quando se está num programa a dois; enviar SMS do telemóvel do/a namorado/a para “averiguar” desconfianças; apagar números de telemóvel da lista de contactos; reencaminhar chamadas do n.º do/a namorado/a para o número próprio;
- Via computador: vigilância de comentários e “movimentos” (como adição de novos amigos) no HI5; espionagem de senhas de acesso (passwords); espionagem das caixas de e-mail (caixa de entrada e de saída, sobretudo, mas muitos confessaram que é “muito útil” espionar a caixa de rascunhos); entrar no MSN com o perfil do/a namorado/a; envio de e-mails através da conta do/a namorado/a; e, entre outros exemplos, apagar perfis pessoais da internet (como Hi5, etc.) e apagar determinados contactos (de quem se tem desconfianças).
A questão é: estes comportamentos adiantam de alguma coisa?

Em todas as respostas que obtivemos, há algo em comum: a agressão não presencial, por SMS (mais do que por chamada telefónica) e por MSN é mais banal do que o mesmo tipo de agressão em presença. Aliás, por MSN o comportamento violento parece mais comum e mais banal (talvez porque a Internet é algo a que se pode aceder de qualquer PC, sem a presença de um objecto físico, como o telemóvel, que pertence especificamente a uma pessoa). Tal deve-se ao facto, parece-nos, de que a tecnologia oferece um caminho para o anonimato e, com isso, o agressor sente-se mais impune e a agressão tende a não ser considerada tão grave – exemplo disso é o facto de que a maior parte dos adolescentes entrevistados afirma que não abriria um envelope endereçado à sua “cara-metade”… Já quanto a espiar o telemóvel (chamadas recebidas/efectuadas; mensagens…. Etc.), quase todos afirmam ou sentir essa curiosidade ou já tê-lo feito. Parece que a tecnologia desculpas as pessoas… parece que a ética não é tão “forte” no mundo virtual!
O facto é que, seja no mundo real ou virtual, tanto num como no outro em igual grau, uma relação só tem alicerces sólidos quando há confiança e respeito mútuo. É, sem dúvida, um comportamento agressivo quando: se espia o telemóvel, se descobre a senha de e-mail e do MSN e se faz passar pelo outro, quando não se responde a SMS e telefonemas durante horas (sem que haja motivo para isso) … etc. Muitos desentendimentos acontecem até por más interpretações daquilo que se espiou (quando alguém trata o/a nosso/a parceiro/a por “lindo/a”, “fofo/a”, “paixão”, não significa matematicamente que haja um caso fora da relação). Também é verdade que a tecnologia permite determinados “jogos de sedução”, em que os envolvidos se sentem menos responsáveis e comprometidos - por exemplo, enviar comentários dúbios para o Hi5, isto é, com dois sentidos, é um modo corrente de alimentar determinados jogos de interesse passional (se o/ namorado/a os confrontar com isso, é mais fácil “fugir” àquilo que ficou implícito).
Mas também não podemos deixar de referir que a tecnologia dá mais liberdade… só que essa liberdade deve ser vivida de modo saudável. A tecnologia deve servir-nos e não sermos nós a servi-la; não nos podemos deixar escravizar pela tecnologia, porque o processo de desconfiança e de instabilidade tende sempre a aumentar: hoje vê-se uma SMS, amanhã um e-mail… se ele/a viu o meu e-mail, tenho direito a entrar no seu MSN com a senha que descobri… enfim, entra-se num processo destrutivo que não pode, de maneira alguma, trazer felicidade para a relação.
Em suma, a tecnologia deve estar ao serviço da relação, ser um mero suporte, e não confundir-se com a própria relação (quantos e quanto jovens não se sentem hoje mais confortáveis a “namorar” à distância, virtualmente, do que no plano “real”?). Os namorados devem estabelecer regras claras quanto ao seu espaço íntimo, negociadas entre ambos, e essas regras, como quaisquer outras, devem ser respeitadas (tal como, por princípios éticos, não iríamos abrir e mexer nas gavetas do/a nosso/a parceiro/a, abrir a sua correspondência ou vasculhar a sua carteira). Sobretudo, para que uma relação seja autêntica é importante que o amor seja consolidado com diálogos presenciais, com ocupações lado a lado, em parceria… e não de costas voltadas. Os SMS, MSN e afins, em si não são um problema; a tecnologia não é um problema – o problema é o que fazemos com ela (já referia Heidegger). Se a nossa relação de namoro se basear apenas em SMS e MSN (muitos namoros vivem os seus ciclos por estes meios: começam a namorar por SMS; zangam-se por SMS; fazem as pazes por SMS; etc.) seremos como os prisioneiros de que nos fala Platão na alegoria da caverna: veremos apenas sombras e pensaremos que isso é a realidade; ao princípio custa encarar a luz, ver a verdade, a realidade… mas, a pouco e pouco, seremos seres humanos mais felizes e mais autênticos!
Larguem o telemóvel e saiam da frente do computador! Vamos viver o amor! O amor verdadeiro!

Comunicação da turma 11.º M da Escola Secundária Maria Amália Vaz de Carvalho, para a disciplina de filosofia (prof. Domingos Diogo Correia), como projecto comum para a unidade “Temas e problemas da cultura científico-tecnológica”.