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domingo, 31 de maio de 2009

Cidadania no Feminino


Em Portugal, apenas em 1976, com a nova constituição, é que as mulheres foram incluídas como cidadãs votantes. Eu pergunto-me quanto tempo é necessário para a sociedade perceber que o estigma de mulher que cuida da casa e é apenas objecto para a procriação, está mais que ultrapassado?! Uma mulher é um ser tão digno como outro qualquer. Por conseguinte, merece o mesmo respeito e mesma atenção, os mesmos cuidados. Sim, é verdade que existem diferenças a nivel físico e neurológico entre homens e mulheres, mas não são diferenças que justifiquem a discriminação que se verifica, ainda nos dias de hoje.
Mesmo que atendesse-mos a estas diferenças, seria, então, um facto que o homem é mais propenso ao desenvolvimento muscular, logo com mais capacidade para o trabalho fisico, e a mulher mais propensa a desenvolver a psique. Assim, veríamos a mulher na posição de topo de carreira, e o homem a lavar a roupa à boa maneira dos anos 50, no tanque. Seria um cenário bastante interessante. Por outro aldo, é facto também que existem muitos mais homens do que mulheres, e este cenário não se verifica só na Europa, em posições de topo. E sabe-se, também, que apesar de ser bastante explícito que não se pode fazê-lo, as mulheres grávidas tornam-se vítimas de discriminação, sendo afastadas dos seus cargos. Chega-se até ao ponto de, numa entrevista de emprego, ser questinado à mulher se esta pensa engravidar, como se isso a tornasse menos apta para o trabalho.
Não obstante tudo o que referi, a discriminação das mulheres, nomeadamente no mundo do trabalho, na própria família, na forma com são vistas pela sociedade, há algo ainda mais repugante – a violência física/ psicológica contra a mulher. Mulheres que, por amor, persistem toda uma vida sem dizer uma palavra sequer, mulheres que temem por chegar a casa, mulheres que têm medo de ser elas próprias, de falar, simplesmente. Estas situações ocorrem em todos os meios – rurais, citadinos – e da casa mais pobre, à mais rica, da mulher iletrada, à com maior nível educacional.
Neste tipo de violência, doméstica, o perpetrador usualmente é o marido, se bem que por vezes os filhos também podem ser os agressores, e a vítima a mulher. Em grande parte dos casos, esta opta por não falar, talvez por medo de represálias, talvez por vergonha pelos que a conhecem, talvez porque ainda tenha uma vaga esperança que o seu casamento de mal fadado ainda se torne num conto de fadas.
Eu conheci o caso de uma mulher que era vítima de violência doméstica. Ela faz parte da minha família mais afastada, sendo que é sogra de uma das minhas primas. Esta senhora tem-se mantido calada durante todo o seu casamento, que já dura há cerca de 25 anos. E ainda hoje surge com hematomas pelo corpo, mas já nem faz questão de tentar arranjar desculpas, pois já ninguém se dá ao trabalho de procurar saber o que se passou - a resposta já é evidente o suficiente.
O filho não intervém. Faz algo que me repugna, que é fingir que nada se passa. Não posso julgá-lo, nem tenho esse direito, mas…Apesar de tudo não consigo perceber porque razão ninguém interfere! É que até há algumas décadas a violência doméstica não era levada a sério, pensava-se que o que acontecia entre quatro paredes era responsabilidade única do casal, e a eles cabia resolver a querela. Assim, a legislação não estva preparada para intervir neste tipo de situações.
Felizmente hoje já não é assim, e existem leis formuladas para defender os direitos das mulheres, e protegê-las de agressões, tanto físicas ou psicológicas, por parte dos seus namorados ou maridos (existem também associações, como a Associação Portuguesa de Apoio á Vitima – APAV – que estão especializadas nestes casos, sabendo, portanto, como intervir, para que tudo se resolva pelo melhor).
Daí que o célebre ditado “entre marido e mulher, ninguém mete a colher” não deva prevalecer nos nossos dias.
Sabem, eu um dia destes gostaria que alguém me contasse que a senhora da qual vos falei já está separada do marido, que durante a noite correu para polícia, ou que se lembrou de fugir para a casa do filho. Gostava que me viessem noticiar que ela perdeu a vergonha de ser vítima e que resolveu gritar por ajuda. Que, finalmente, percebeu que quem é digno de ter vergonha é o seu agressor, que ataca alguém mais fraco, na tentativa de se sentir mais forte.
Talvez um dia tudo isto seja verdade, e assim o mundo se torne um bacadinho mais justo.


Bárbara Ferreira - 10.ºF - ESMAVC