
Tenho visto no Blog muitos testemunhos sobre violência no namoro... mas em quase todos o agressor é um elemento do sexo masculino. Há até um artigo que sugere que a violência no namoro é um caso de homens, que as vítimas são sempre as mulheres... e eu não concordo. Aliás, todos nós sabemos que não é assim.
Se, por um lado, é verdade que as mulheres hoje já têm mais apoio institucional e, com a conquista de uma cidadania igual, vão tendo menos medo de falar, de acusar os agressores (porque, diga-se de passagem, também se sentem mais protegidas pelo Estado do que antes, e ainda bem)... por outro, parece que os homens ainda têm medo de falar... não vi nenhum relato de violência no namoro sendo a mulher a agressora - também é verdade que as namoradas raramente partem para a violência física, mas há muitos casos em que isso acontece e que os homens se calam.
Vi hoje na Sic o caso de um homem que fez queixa na polícia da Covilhã de um antigo namorado que o agredia. Pensei logo: que homem de coragem! É verdade que o senhor referiu que teve medo da chacota dos polícias, por ser homossexual... mas não se importou e denunciou na mesma. A tarefa dos polícias não é fazer chacota... em todo o lado há bons e maus profissionais - e ante um mau profissional, que descrimina, há também que fazer queixa... Ficar calado é que não é o remédio, com certeza!
Os homens têm de começar a perceber que ser vítima de agressão no namoro não é sinónimo que a sua masculinidade está em baixa. Só uma mentalidade machista e preconceituosa é que pensa assim.
Conheço um amigo que, cada vez que a namorada tem ciúmes dele, lhe bate. "É só um estalo, nem dói nem nada", diz o meu amigo, quando ela lhe começa a bater em frente de todo o grupo de amigos. Isto é, ele acha que se disser que dói deixa de ser menos homem por isso (não vê sequer que o problema não está no doer, mas no gesto, na falta de respeito). Quando nós lhe dizemos "E tu não te defendes?", ele responde: "Desde quando se bate em mulheres?". Bem, nós nunca quisemos aconselhá-lo a bater na namorada... mas achamos triste que ele não se defenda, que não deixe que ela lhe bata porque ainda não vê as mulheres num plano igual ao seu. Esse meu amigo acha que, só por ser mulher, a namorada é frágil e a violência não conta tanto. Digo eu: "numa namorada não se bate nem com uma flor e num homem também não!".
É preciso que os homens deste país não vivam amedrontados e presos a preconceitos. A violência não é uma questão de género, nem de etnia, nem de orientação sexual, nem de cultura, nem de outra coisa qualquer. A vítima pode ser qualquer um de nós... e só temos uma arma: falar, dizer, gritar, denunciar. O silêncio e o medo tornam-nos muito pequenos. Os homens têm de perceber, como as mulheres já perceberam, que a culpa é de quem agride e não de quem é agredido; não importa "o que outros pensarão?!"... importa é não nos deixarmos enfraquecer... importa é não se ser infeliz!
José Ferreirinhas - Arruda dos Vinhos