BATER?! APENAS SE FOR O CORAÇÃO!


terça-feira, 26 de maio de 2009

HÁ SEMPRE UMA SAÍDA!


Infelizmente há pessoas que têm de mudar de vida, de uma forma drástica, para que possam finalmente vivê-la. O depoimento seguinte vem mostrar como estas situações são bem reais.
A minha amiga Maria veio contar a sua experiência nesse campo.
“Durante muito tempo, vivi uma situação de sufoco, sem saber o que dizer, nem o que fazer para mudar a situação em que vivia naquela altura. Até que chegou a altura em que disse, “basta”! Já não aguento mais, estou farta desta vida! Não tenho privacidade alguma, tenho de dar satisfações de tudo e nada, para onde vou, com quem estou, entre outras coisas. E, ainda por cima, como não ficava satisfeito com as respostas dadas, achando que o estava a enganar, dava-me grandes tareias, provavelmente achava que era assim que as coisas iriam melhorar. Estava redondamente enganado: a situação só teve tendência a piorar.
Naquela altura, já mãe do primeiro filho que tive com ele, tentei pedir ajuda à minha mãe; consegui, felizmente, mas como por vezes tem-se a mente fraca, acabei por perdoá-lo, pensando que não iria voltar a passar pelo mesmo inferno. Enganei-me! Pois voltou tudo ao início, acabei por engravidar do segundo filho, o que é que eu fui fazer! Tive como primeiras palavras o seguinte: “essa criança não é minha”. O que fariam vocês no meu lugar? É difícil não é?
Só quem passa por estas situações, é que poderá dar uma resposta ao problema, e, ainda assim, nem sempre é possível. Tal como vos disse lá atrás, tive de parar com os maus tratos que sofria, até porque já começava a afectar os meus filhos tanto psicologicamente como fisicamente, e não estava com mais forças para tal. Então o que fiz? Tive sangue frio o suficiente e esperei que ele cometesse mais algum acto de violência, para que depois não perdesse a razão, ao abandonar o lar com os meus filhos, que aliás foi o que acabei por fazer.
Depois de cometido esse acto, levei apenas a roupa que tinha no corpo, tal como os meus filhos, dirigi-me a Palmela, à Santa Casa da Misericórdia, onde pedi ajuda, pois já não tive coragem de pedir auxílio à minha mãe. Lá, deram-me uma ajuda, em termos psicológicos, e quando acharam que estava melhor para receber outro tipo de ajuda, transferiram-me para a Instituição APAV (Associação Portuguesa de Apoio à Vítima), onde me deram todo o apoio que necessitava para recuperar a minha vida, e poder seguir em frente sozinha, sem medos nem receios.
Da APAV recebi os seguintes apoios: de início recebi um grande apoio de uma vasta equipa de psicólogos. Para além disso, obtive trabalho para ter um pouco de independência. Ao princípio confesso que foi difícil a adaptação, porque sempre que queria marcar encontros com a minha família tinha de ser longe do local onde habitava, já que essa era a forma que eles tinham para proteger as pessoas (era de nunca se saber onde essas mesmas moravam, e, mesmo assim, ainda mudei de casa umas duas ou três vezes, porque o pai dos meus filhos acabava sempre por me encontrar, não me perguntem como porque nem eu mesma sei). Por fim, fui transferida para o Algarve, onde foi a última vez que estive ao abrigo da APAV; depois de tantos tratamentos aos quais fui submetida, para me poder tratar de todos os problemas que adquiri durante aquele tempo todo em que fui vítima de maus tratos, depois de já estar a trabalhar e de já poder dar uma vida digna aos filhos, a APAV, encarregou-se de me arranjar uma casa, deume asas para poder voar mais alto, mas estando sempre com os pés bem assentes na Terra. Agradeço, todas as noites todo o apoio que me deram e principalmente o voto de confiança, porque infelizmente há pessoas que levam mais tempo a restabelecer-se e, por isso continua ao abrigo, de associação. Foram cerca de quatro anos, os quais eu nunca irei esquecer. MAS TAMBÉM NUNCA ESQUECEREI QUANDO RESPIREI DE ALÍVIO E VI QUE PODIA SER FELIZ!
De momento, estou muito bem comigo própria e com os meus filhos, vivemos no Algarve, mais propriamente em Albufeira, e é claro vivo sozinha com eles. Fico contente por ter conseguido ultrapassar toda esta situação, mas mais contente fico por ter sido a tempo, embora tenha ficado com sequelas, uma delas a depressão que ainda hoje, passado tanto tempo, ainda vai dando sinal de si. Espero que com este depoimento as mulheres deste país, deixem de ter medo, e que não se submetam aos seus parceiros ou parceiras, dado que esta situação há em ambos os sexos, e que tomem decisões, decisões essas que, acreditem, podem mudar a vida de uma pessoa a 100%, mas é preciso pensar muito bem no assunto, porque um passo em falso e a nossa vida pode acabar ali.”
Nota:
APAV
Associação Portuguesa de Apoio à Vítima
Esta é uma instituição particular de solidariedade social, sem fins lucrativos, e pessoa colectiva de utilidade pública, reconhecida, que tem como objectivo estatuário e missão social a prestação de serviços às vítimas de crime, prestando-lhes informação, aconselhamento e apoio emocional, jurídico, psicológico e social.

Trabalho realizado por: Carina – Curso EFA Sec2 – ES Maria Amália Vaz de Carvalho