BATER?! APENAS SE FOR O CORAÇÃO!


quarta-feira, 27 de maio de 2009

A propósito da distinção entre agressividade e violência

(Pintura: Barahona Possolo)

Todos os animais são agressivos mas só um animal é violento – o animal racional.
A agressividade faz parte integrante da natureza animal, é uma estratégia de sobrevivência, geneticamente programada que, em determinadas situações e face a estímulos adequados, mobiliza os recursos e a energia do organismo para a sua preservação. No ser humano, tal como nos outros animais, a agressividade tem um valor de sobrevivência e é determinante para que tenhamos sucesso ou para vencer numa competição.
A agressividade torna-se violência quando a ânsia de vencer, de dominar, não considera o outro como pessoa, não respeita o seu valor e dignidade. Dizemos que uma competição entre atletas é agressiva quando cada um usa toda a sua força e engenho para vencer os demais, precisamente porque os reconhece como fortes, como válidos, como capazes, e é em nome dessas qualidades, dessa competência, que quer vencer, isto é, quer mostrar que também é capaz, que é digno de reconhecimento. Pelo contrário, se faz batota, a competição deixa de ser válida porque se desconsiderou o mérito próprio e o mérito do outro.
É quando estamos voltados para nós próprios, e de costas para os outros, que nos tornamos violentos – sentimo-nos o centro de tudo, achamos que tudo nos é devido (mesmo que o não alcancemos por mérito); exigimos que os outros nos vejam da mesma forma, que nos vejam como nós nos vemos – como únicos; e zangamo-nos se isso não acontece.
A violência surge na confluência entre o narcisismo e a vontade de domínio – somos violentos quando queremos possuir pela força, quando submetemos o outro aos nossos desejos sem atender aos seus desejos, quando queremos impor a nossa razão sem escutar outras razões. A violência tem a ver com a incapacidade de olhar o outro, de o reconhecer como pessoa, de respeitar a sua dignidade. São violentos os actos, gestos ou palavras que, deliberadamente, procuram anular o valor do outro, que procuram diminuí-lo para que possamos surgir como únicos em todo o nosso (falso) esplendor. Violento é o que mata, espanca ou tortura em nome de desígnios e vaidades pessoais (o animal luta pela sua sobrevivência); violentos são os gestos de desprezo; violentas são as palavras que querem ofender; violentos são os gritos que não querem que outras vozes se oiçam.
Só há violência quando há intenção de magoar, por isso o homem é o único ser violento porque é o único que age intencionalmente e que tem consciência das suas acções. Parece que a racionalidade é um requisito para a violência. No entanto, a mesma racionalidade que me ajuda, conscientemente, a humilhar o outro, também me permite pensar que é errado maltratá-lo.
O que é que nos torna violentos? O que é que faz com que em nós, humanos, a agressividade muitas vezes não cumpra a sua função, transborde os seus domínios e se torne violência? O que é que faz com que tapemos os ouvidos à voz da pura razão que nos diz que devemos ver a humanidade nos outros e em nós próprios? O que é que faz com que não consigamos escutar o coração quando nos ordena que amemos os outros como a nós mesmos? Porque é que a história da humanidade está cheia de guerras, de atrocidades, de egoísmo?
Dizia K. Lorenz no seu livro A Agressão, Uma História do Mal :”O amor e amizade devem compreender toda a humanidade e devemos amar todos os nossos irmãos humanos sem discriminação. Este mandamento não é novo. A nossa razão é perfeitamente capaz de compreender a sua necessidade e a nossa sensibilidade é capaz de apreciar a sua beleza. E no entanto, tal como somos feitos, somos incapazes de lhe obedecer”. Porque é tão difícil a via do amor?
Reflectir acerca da violência arrasta-nos para o insondável mistério do mal e para a dualidade da natureza humana. Egoísta, vaidoso, cruel, mas também inteligente, sensível e capaz de amar, o homem é esse ser intermédio de que falava Platão. Esse ser que não se consegue definir, que vive nessa terra sem nome a meio caminho entre os deuses e as bestas, sem saber onde é a sua casa; esse ser que não é nem deus nem besta e que oscila ora para um lado ora para outro, como se o seu olhar estivesse ofuscado por uma névoa.
Narcisismo, vaidade, egoísmo, vontade de domínio, mal ... São estes, para mim, os caminhos da violência que, de tantas vezes cruzados, acabam por se tornar caminhos de vida. Todos gostaríamos que a humanidade enveredasse por outros caminhos. Penso que devemos começar por não esquecer que existem outras possibilidades, mesmo que a princípio nos pareçam veredas ou ruelas. As autoestradas, as vias rápidas, os itinerários principais, que nos seduzem com as suas promessas de rapidez e nos convidam a viver avidamente a vida (para chegar aonde?), são muitas vezes caminhos de desgaste e de morte. Pelas estradas secundárias caminha-se mais lentamente mas a paisagem é muito mais bela – se calhar porque vamos mais devagar e conseguimos prestar atenção ao que nos rodeia. Prestar atenção aos outros, parar para pensar, contemplar o que é belo – são estas algumas das coisas que nos podem ajudar a encontrar outros caminhos, que nos podem ajudar a limpar a névoa e a reeducar o olhar.

Ana Goulart - Coordenadora do Departamento de Filosofia da ESMAVC