BATER?! APENAS SE FOR O CORAÇÃO!


quinta-feira, 21 de maio de 2009

VIOLÊNCIA POR SMS E MSN


(veja a história de BD completa em: http://www.monica.com.br/comics/piteco/pag1.htm)


A informatização do mundo é hoje um facto à escala global. Poucos são os cantos do globo onde não existe Internet, rede móvel, entre tantos e tantos outros meios de comunicação – em massa e para massas. Aliás, a nossa sociedade há-de ser, um dia, apelidada de “Sociedade da Informação” (em muitos casos, informação até demais, diremos nós).
Como não poderá deixar de ser, essas novas dinâmicas de comunicação interferem e influenciam a sociedade: o seu acesso ao conhecimento, a novos modos de pensar e agir e, claro, também novos modos de sentir – cada vez mais os meios informáticos são um canal, por excelência, para comunicar afectos; em muitos casos, namorar é sinónimo, ou pelo menos em grande parte, de MSN e SMS. Esta nova realidade não pode passar despercebida, não podemos falar em relações de namoro sem falar na forma como elas se sustêm e dinamizam: o computador e o telemóvel (quantos e quantos namorados se conhecem, nos nossos dias, através da Net, seja pelo Messenger seja pelo Hi5?).
Pois bem, pirataria informática é um termo de que todos já ouvimos falar e que faz parte do nosso quotidiano. “Relações” e afectos informáticos… também. Mas… E violência informática?
Como ficou patente nos trabalhos que realizámos, o comportamento agressivo não se esgota na violência física (e, muitas vezes, não começa com ela: é uma dinâmica em avalanche, que vai crescendo e crescendo). Sempre que o outro (namorado/a) não é respeitado na sua individualidade (como diria Kant: sempre que o outro não é visto como um fim em si mesmo, mas apenas como um meio), podemos falar em violência (variando, obviamente, de grau e de intensidade).
A questão essencial é: já alguma vez nos sentimos “agredidos”/ “invadidos”/ “desconsiderados” pelo/a namorado/a via telemóvel ou mail/msn? Como?
Assim, num inquérito, de resposta livre, realizado na nossa escola, obtivemos algumas respostas-exemplo:
- Via telemóvel: SMS com conteúdo impróprio; chantagem via SMS; não resposta a SMS durante largas horas ou dias; mexer no telemóvel para vigiar as SMS e chamadas; estar a enviar SMS de 30 em 30 segundos quando se está num programa a dois; enviar SMS do telemóvel do/a namorado/a para “averiguar” desconfianças; apagar números de telemóvel da lista de contactos; reencaminhar chamadas do n.º do/a namorado/a para o número próprio;
- Via computador: vigilância de comentários e “movimentos” (como adição de novos amigos) no HI5; espionagem de senhas de acesso (passwords); espionagem das caixas de e-mail (caixa de entrada e de saída, sobretudo, mas muitos confessaram que é “muito útil” espionar a caixa de rascunhos); entrar no MSN com o perfil do/a namorado/a; envio de e-mails através da conta do/a namorado/a; e, entre outros exemplos, apagar perfis pessoais da internet (como Hi5, etc.) e apagar determinados contactos (de quem se tem desconfianças).
A questão é: estes comportamentos adiantam de alguma coisa?

Em todas as respostas que obtivemos, há algo em comum: a agressão não presencial, por SMS (mais do que por chamada telefónica) e por MSN é mais banal do que o mesmo tipo de agressão em presença. Aliás, por MSN o comportamento violento parece mais comum e mais banal (talvez porque a Internet é algo a que se pode aceder de qualquer PC, sem a presença de um objecto físico, como o telemóvel, que pertence especificamente a uma pessoa). Tal deve-se ao facto, parece-nos, de que a tecnologia oferece um caminho para o anonimato e, com isso, o agressor sente-se mais impune e a agressão tende a não ser considerada tão grave – exemplo disso é o facto de que a maior parte dos adolescentes entrevistados afirma que não abriria um envelope endereçado à sua “cara-metade”… Já quanto a espiar o telemóvel (chamadas recebidas/efectuadas; mensagens…. Etc.), quase todos afirmam ou sentir essa curiosidade ou já tê-lo feito. Parece que a tecnologia desculpas as pessoas… parece que a ética não é tão “forte” no mundo virtual!
O facto é que, seja no mundo real ou virtual, tanto num como no outro em igual grau, uma relação só tem alicerces sólidos quando há confiança e respeito mútuo. É, sem dúvida, um comportamento agressivo quando: se espia o telemóvel, se descobre a senha de e-mail e do MSN e se faz passar pelo outro, quando não se responde a SMS e telefonemas durante horas (sem que haja motivo para isso) … etc. Muitos desentendimentos acontecem até por más interpretações daquilo que se espiou (quando alguém trata o/a nosso/a parceiro/a por “lindo/a”, “fofo/a”, “paixão”, não significa matematicamente que haja um caso fora da relação). Também é verdade que a tecnologia permite determinados “jogos de sedução”, em que os envolvidos se sentem menos responsáveis e comprometidos - por exemplo, enviar comentários dúbios para o Hi5, isto é, com dois sentidos, é um modo corrente de alimentar determinados jogos de interesse passional (se o/ namorado/a os confrontar com isso, é mais fácil “fugir” àquilo que ficou implícito).
Mas também não podemos deixar de referir que a tecnologia dá mais liberdade… só que essa liberdade deve ser vivida de modo saudável. A tecnologia deve servir-nos e não sermos nós a servi-la; não nos podemos deixar escravizar pela tecnologia, porque o processo de desconfiança e de instabilidade tende sempre a aumentar: hoje vê-se uma SMS, amanhã um e-mail… se ele/a viu o meu e-mail, tenho direito a entrar no seu MSN com a senha que descobri… enfim, entra-se num processo destrutivo que não pode, de maneira alguma, trazer felicidade para a relação.
Em suma, a tecnologia deve estar ao serviço da relação, ser um mero suporte, e não confundir-se com a própria relação (quantos e quanto jovens não se sentem hoje mais confortáveis a “namorar” à distância, virtualmente, do que no plano “real”?). Os namorados devem estabelecer regras claras quanto ao seu espaço íntimo, negociadas entre ambos, e essas regras, como quaisquer outras, devem ser respeitadas (tal como, por princípios éticos, não iríamos abrir e mexer nas gavetas do/a nosso/a parceiro/a, abrir a sua correspondência ou vasculhar a sua carteira). Sobretudo, para que uma relação seja autêntica é importante que o amor seja consolidado com diálogos presenciais, com ocupações lado a lado, em parceria… e não de costas voltadas. Os SMS, MSN e afins, em si não são um problema; a tecnologia não é um problema – o problema é o que fazemos com ela (já referia Heidegger). Se a nossa relação de namoro se basear apenas em SMS e MSN (muitos namoros vivem os seus ciclos por estes meios: começam a namorar por SMS; zangam-se por SMS; fazem as pazes por SMS; etc.) seremos como os prisioneiros de que nos fala Platão na alegoria da caverna: veremos apenas sombras e pensaremos que isso é a realidade; ao princípio custa encarar a luz, ver a verdade, a realidade… mas, a pouco e pouco, seremos seres humanos mais felizes e mais autênticos!
Larguem o telemóvel e saiam da frente do computador! Vamos viver o amor! O amor verdadeiro!

Comunicação da turma 11.º M da Escola Secundária Maria Amália Vaz de Carvalho, para a disciplina de filosofia (prof. Domingos Diogo Correia), como projecto comum para a unidade “Temas e problemas da cultura científico-tecnológica”.