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domingo, 31 de maio de 2009

Violência no Namoro e VIH - SIDA



Entrevista ao Doutor Marco de Almeida Pereira
Investigador do Instituto de Psicologia Cognitiva, Desenvolvimento Vocacional e Social da Universidade de Coimbra





Doutor Marco Pereira: Em primeiro lugar gostaria de agradecer o convite para responder a estas perguntas. Tive a oportunidade de espreitar o vosso blog e parece-me que reúne um conjunto de informações e histórias de grande interesse. Gostaria de reconhecer o mérito deste trabalho e de vos dizer que este blog não se fique apenas por uma tarefa escolar. Façam uma divulgação expansiva deste vosso trabalho.



1. Qual a relação entre violência no namoro e transmissão do VIH?
Doutor Marco Pereira: No meu ponto de vista existe uma relação de probabilidade. Por exemplo, nos países em que a prevalência da infecção VIH é elevada e em que as mulheres têm uma posição social baixa e de maior dependência económica, existe um risco elevado de infecção associado à violência sexual. Num parêntesis, há que ter em atenção que a violência no namoro é muito mais abrangente e não se circunscreve à violência sexual, mas a outras formas de violência, como por exemplo, violência física ou emocional.
A relação com a transmissão do VIH verifica-se sobretudo no seguinte: o sexo forçado ou mediante coacção aumenta a vulnerabilidade feminina, o por sua vez vai afectar o poder e capacidade das mulheres para negociar as condições das relações sexuais, em particular o uso do preservativo. Embora entre os adolescentes o uso seja cada mais frequente, muitas vezes o que acontece é que devido a um uso incorrecto, pode haver um risco maior de resultados mais adversos (entre os quais a transmissão de doenças sexualmente transmissíveis como a infecção por VIH). E, num outro parêntesis, ao contrário da informação que muitas vezes é veiculada, o uso do preservativo não serve exclusivamente para prevenir gravidezes indesejadas ou não planeadas: é um dos meios de prevenção mais eficazes da transmissão (por via sexual) do vírus da SIDA. Aliás, a visão do preservativo como método contraceptivo e não como uma forma de prevenir doenças sexualmente transmissíveis, associada à percepção de que o namorado é seguro e que é a pessoa que amam tem amplificado a ideia de invulnerabilidade à SIDA.
No contexto de uma relação, muitas vezes o maior obstáculo ao uso do preservativo diz respeito à confiança, já que solicitar a sua utilização poderá traduzir falta de confiança namorado. A ideia de que o amor protege é tão perigosa que não resisto a referir um excerto de uma entrevista que surgiu numa revista (salvo erro, a Gente Jovem) há uns anos atrás: as pessoas com quem tive relações foi porque as amava. E pensei que o amor nunca me fosse trair. A verdade é que traiu. Eu amava a pessoa, confiava na pessoa, logo não precisava do preservativo. Pensava que se uma pessoa gosta de verdade, nada acontece. E pronto, deu-se.

2. Como podem defender-se as vítimas de violência no namoro?

Doutor Marco Pereira: Em primeiro lugar, dizendo não a qualquer tipo de pressão emocional ou sexual. Sabemos que a violência no contextos das relações íntimas, tradicionalmente, a atenção tem sido dada à na mulher enquanto vítima (isto não é regra, mas de longe será a excepção).
Isto implica que os adolescentes (sobretudo as raparigas em posições de maior vulnerabilidade) treinem competências de comunicação, negociação e tomada de decisão; treinem capacidades de resolução de conflitos e promovam o pensamento crítico e a auto-confiança, permitindo, ao mesmo tempo a redução de comportamentos de risco, a modificação de estilos de vida menos saudáveis e a vivência de uma sexualidade mais integrada e, sobretudo mais responsável e responsabilizante.
A melhor defesa não será o ataque mas, no caso de vivenciarem uma “relação violenta” importa ter a capacidade para pedir ajuda e saber a quem recorrer. Se entenderem que os pais não serão o melhor recurso, algum professor da escola (em quem confiem) poderá ser uma boa alternativa. Em última instância, poderão sempre recorrer à Associação de Apoio à Vítima, que está mais que vocacionada para responder a este tipo de questões.

3. Que mensagem deixa para os jovens namorados?

Doutor Marco Pereira: Há um aspecto que me parece importante referir: a violência no namoro pode (de uma forma probabilística e não determinista) ser um indicador de violência numa relação formalizada (entenda-se como relação formalizada uma relação de casamento ou união de facto), naturalmente um indicador de mau (para não dizer péssimo) prognóstico. Pensando relação de casamento, acredito que todos conhecem casos de relações que se mantém durante anos num cenário de violência quase permanente. As razões para manter este tipo de relação são várias: desde a dependência económica, a existência de filhos, etc. Quero com isto dizer (e mesmo parecendo provocatório) que numa relação de namoro violenta, provavelmente as razões para manter uma relação desta natureza não serão tão “fortes”.
Por outro lado, é importante procurar compreender sentimentos como o amor e a intimidade e o respeito pelos princípios e valores defendidos por cada um, bem como uma tomada de consciência quanto à exploração sexual por parte dos outros, sem esquecer os aspectos relativos à responsabilidade quanto a si e ao outro no que directamente se prende com as emoções e comportamentos. E, muitíssimo importante, condenar todas as formas de violência (física; emocional; sexual; e mesmo a violência que se tem tornado comum na escola e que é conhecida como bullying) e, como referi na pergunta anterior, procurar ajuda. Em idades mais precoces é uma batalha violentíssima tentar lidar com uma situação destas sozinho(a).
11.ºM - ESMAVC