BATER?! APENAS SE FOR O CORAÇÃO!


quarta-feira, 6 de maio de 2009

O ESTRANHO CASO DE ALGUÉM PRÓXIMO DE NÓS


Fui-me apercebendo, ao longo dos anos, que amor e violência estão, infelizmente, muitas vezes associados. Muito mais do que seria desejável e provável. Desde as brincadeiras infantis, em que o insulto era a maneira mais eficaz de chamar a atenção da cara-metade, até à adolescência, onde, a título experimental, se permitia testar limites – e, não raras vezes, esses limites ultrapassavam aquilo que vulgarmente entendemos como comportamento violento. Mas, afinal, o que se entende por comportamento violento?
O que é mais óbvio é o comportamento violento quando este se traduz em algo físico: o bater, o gritar, o empurrar, o insultar (mesmo que tacitamente) … entre outras formas criativas (que, para a violência, a humanidade parece não ter limites). Mas o óbvio não é uma tarefa da filosofia – nunca foi e nunca será. Há, sem dúvida, outro tipo de violência… mais velada mas, nem por isso mesmo, menos grave: a violência emocional. Aliás… se um namorado bate numa namorada, ou uma namorada bate num namorado (ou as múltiplas conjugações possíveis), num local público… decerto a violência não se esgotou no gesto. Arrisco dizer, aliás, que essa é apenas a parte visível (a ponta do iceberg).
Quem de nós não assistiu já a estes “casos estranhos”? Mesmo ao nosso lado, um amigo, uma amiga, alguém que temos por “normal”, de repente desata a bruxulear nas palavras e nos gesto e, num ápice, a agredir… e nós, perplexos, a fingir que nada vemos nem vimos, constrangidos… e, momentos depois, eles, os apaixonados, a fingir que nada se passou. E todos fingimos – quer porque é sempre mais fácil fingir… quer porque o adágio o manda: “entre marido e mulher não se mete a colher” (e o direito português, até há bem pouco tempo atrás, era reflexo desta máxima amedrontada). A partir daqui, haja o que houver, nada veremos.
Ao longo dos tempos tenho assistido a muito tristes casos em que amor e desamor se confundem.
Em primeira instância, lembro-me de um caso de infância em que o passatempo predilecto de uma colega era puxar os cabelos franzinos do seu apaixonado (um miúdo magricela, dois anos atrasado nas classes, com tendência para criar parasitas na cabeça) – atenção, que a pequena gostava mesmo dele! Mas, em vez de escrever nos muros os seus nomes, como qualquer mortal de meio metro, decidiu, todavia, marcar a sua presença além da criptografia… e ele coitado, infeliz, até ficava contente com os puxões, porque sempre fazia a diferença!
Já adolescente, assisti, em directo e a cores, a um amigo que, cheio de ciúmes, decidiu dar uma sova à namorada no meio da café da aldeia… com todos a assistir – ao princípio nós, os amigos, afectados no seu orgulho masculino de ver uma amiga indefesa, ainda intercedemos… mas quando a coisa se repetiu uma e outra vez… o entusiasmo de defesa baixou e, aquilo que nos pareceu horrendo da primeira vez… tornou-se banal e óbvio (só se surpreendia da pancadaria quando alguém no café fosse de fora… e nós, os gentios assistentes, surpreendíamo-nos que alguém se surpreendesse com algo tão banal).
Na minha vida de jovem adulto, um caso mais: os pais de um colega, em pleno jantar de queima das fitas (supostamente para comemorar a licenciatura do filho e tirar muitos retratos típicos de família ridiculamente feliz) … desentenderam-se e, em pleno restaurante, desataram numa guerra de comida indescritível – esta cena chocou-me… mais do que aquela vez em que a minha amiga adolescente foi, propositadamente, atropelada pelo namorado. E é exactamente isto que devemos questionar… é exactamente isto que me assusta: até que ponto comportamentos violentos podem tornar-se aceitáveis – na medida em que são quotidianos?
Não sei responder a esta questão. Mas sei que não estou disposto a aceitar que a habituação me diminua o sentido de realidade. Já o fez uma vez e não se repetirá. O imperativo moral é categórico: agredir alguém nunca pode ser banalizado. E, atenção, o argumento “Se apanha e não faz nada é porque gosta” não vale! Ninguém gosta de “apanhar”… se um amigo ou amiga apanham não é porque gostem… é, antes, por outro motivo qualquer (falta de auto-estima, por exemplo) … e é nossa tarefa, como amigos responsáveis, não voltar as costas e fingir que não vemos – “Já lhe disse o que tinha a dizer, mil vezes, e não deu em nada, logo, não adianta de nada!”. Adianta sempre; mesmo que seja para mostrar a essa pessoa que a agressão não é amor e lembrar-lhe isso todos os dias, todas as horas, todos os minutos, se preciso for… para que não chegue a acreditar que amar é isso. E dir-lhe-emos duas mil ou três mil vezes, se for preciso, com a indignação do primeiro dia: “Tu não vês que amar não é isso?!”. Essa indignação repetida pode fazer a diferença.

Domingos Diogo Correia
Ilustração: Paula Rego, 1995